DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 14 – Ouvir

(Re)aprender a ouvir, mais uma competência que nenhum “perfil” prevê, mas que nos tempos digitais tem tanta ou mais importância do que antanho, nem que seja para não ficarmos presos numa incomunicabilidade plena de discursos fechados sobre si mesmos.
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Outra das vítimas do efeito conjugado da rapidez digital com a mediação por teclados e ecrãs das interacções humanas foi a paciência para ouvir o que os outros têm para dizer, não recebendo isso apenas como um “ruído” que não pode ser evitado, mas sim como algo que deve ser compreendido e processado, de modo a estabelecer o que em tempos se convencionou chamar “conversa”. Porque uma conversa vai muito além da simples troca de enunciações, que se sucedem de modo quase pré-formatado, sem atenção ao que os outros estão a dizer, mas com a preocupação quase exclusiva de passar uma mensagem e pouco mais.

Esta crescente incapacidade para ouvir de um modo activo e preocupado em estabelecer um diálogo que possa ter algum potencial transformador das crenças pessoais verifica-se muito nos adultos. Nos mais jovens, a dificuldade em ouvir tem menos a ver com preconceitos e muito mais com a pressa de ver acontecer as coisas em modo acelerado, como se fosse um jogo permanente, sem pausas.

Isso já era sensível nas aulas presenciais, mas acentuou-se no ensino remoto. A pressa em ter um retorno imediato, curiosamente mais difícil porque nem sempre as condições tecnológicas são as melhores. Falta de disciplina em esperar pela sua vez, em atender a que não se é a única pessoa a querer (saber) algo ou ter resposta para a sua questão. Aliada a essa atitude está o excesso de interrupções, exactamente porque não existe o interesse em ouvir o que outros têm para dizer. O atropelo do que outrém está a dizer tornou-se quase uma regra, com o microfone ligado a fazer as vezes da intervenção a despropósito na sala de aula física.

A fala de cada um como prioritária, sendo a dos outros mero “ruído” a ignorar. Por vezes, repetindo questões, por nem sequer ter existido o cuidado em escutar e processar informação já transmitida anteriormente. Uma cacofonia que acaba por tornar a comunicação mais lenta e repetitiva do que rápida e eficaz.

(Re)aprender a ouvir, mais uma competência que nenhum “perfil” prevê, mas que nos tempos digitais tem tanta ou mais importância do que antanho, nem que seja para não ficarmos presos numa incomunicabilidade plena de discursos fechados sobre si mesmos.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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