DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 13 – Aulas 3D

Na sala de aula tradicional, o contacto é imediato, assim como a interacção é estabelecida sem uma mediação que a torna mais lenta. Sinto uma maior capacidade de intervenção em tempo útil, junto dos alunos, quando estou perante eles. A aula física é uma aula a três dimensões, enquanto a aula virtual é 2D nos seus melhores momentos e quando as condições não são limitadas pelos contrangimentos da rede ou dos equipamentos.
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O tipo de interacção que se estabelece numa aula remota tem elementos muitos diferentes de uma aula presencial que não derivam apenas dos aspectos tecnológicos. Mesmo o factor humano reage e relaciona-se de forma diferente com o ambiente envolvente, porque tudo se torna bidimensional. Ao contrário do que se possa anunciar, os meios digitais limitam a interactividade e, excepto em algumas operações automáticas, reduz a velocidade de resposta aos estímulos.

Na sala de aula tradicional, o contacto é imediato, assim como a interacção é estabelecida sem uma mediação que a torna mais lenta. Sinto uma maior capacidade de intervenção em tempo útil, junto dos alunos, quando estou perante eles. A aula física é uma aula a três dimensões, enquanto a aula virtual é 2D nos seus melhores momentos e quando as condições não são limitadas pelos contrangimentos da rede ou dos equipamentos.

O ecrã traz-nos alunos num plano, em que todos estão numa situação de teórica igualdade que acaba por negar a possibilidade de uma percepção diferenciada das suas atitudes perante o que se passa, da forma como olham e se mexem, como manipulam os seus materiais, como interagem entre si. E se a imagem é plana, o som chega com atraso, empastela cambiantes, raramente nos traz aquilo que cada um@ verdadeiramente é, reduz a capacidade de percepcionar aqueles mínimos detalhes que ajudam o professor a compreender o que se passa para além do que é dito ou não.

Estas são questões já bastante abordadas e tratadas sobre as limitações do ensino à distância, não são uma novidade acabada de descobrir. Mas ainda há “especialistas”, dos instantâneos aos que fazem parte da paisagem há muito tempo, que ainda insistem nas virtudes maravilhosas da interactividade digital. A qual existe, por certo, mas com as “ferramentas”. Quanto à dimensão humana, quanto mais tecnologia, por rápida que seja, menor é a interactividade em virtude da mediação que se intromete e do modo como essa mediação reduz as aulas a uma realidade que fica a 2D.

Se o mundo se tornou mais rápido por ser “plano” (Thomas Friedman) e a informação com um acesso mais veloz por causa dos novos meios digitais, as aulas à distância não têm ainda como competir com a tridimensionalidade das aulas presenciais. Mesmo que nos transformem em hologramas.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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