DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 11 – Ansiedades

Ao contrário de algumas teses sobre a ansiedade que a avaliação impõe externamente aos alunos, eu estou mais familiarizado com a ansiedade e mesmo irritação quando a avaliação se atrasa e uma certa incompreensão quando eu enveredo pela conversa do “não se preocupem por enquanto com a avaliação, que não é o que me importa mais”. O olhar que me é dirigido em resposta é mais do tipo “despache-se lá com o código do quizz que eu estou aqui à espera, sem nada de mais interessante para fazer”.
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Com os miúdos mais pequenos e os meus ainda são relativamente pequenos (5º ano), umas das minhas últimas preocupações é a questão da avaliação. Sim, vou atribuindo tarefas, mas estou mais preocupado em perceber se estão em condições de as cumprir e até que ponto o fazem seguindo os procedimentos correctos e com a responsabilidade de respeitarem os prazos, que são amplos para o que é pedido.

Mesmo se nas últimas aulas testei o preenchimento de quizzes online, isso foi feito com o intuito de aferir da sua exequibilidade, nem sequer estava preocupado em registar os resultados finais. Apenas se conseguiam aceder ao questionário e se entendiam como o preencher. O balanço não foi mau de todo, apesar dos constrangimentos esperados.

O curioso é que são eles a pressionarem-me para saberem que nota tiveram o mais depressa possível, quando a correção não é automática. E esse é um traço da natureza humana, mesmo da petizada, que alguns especialistas algo românticos, no sentido menos agradável do termo, da natureza humana parecem desconhecer. A miudagem adora competir e não são apenas os que “ganham”. Um questionário no Quizizz, em que se vai acompanhando o desempenho em tempo real, com alguns dos truques próprios de um concurso televisivo, suscita um entusiasmo que chega ao ponto de quererem fazer mais um e mais outro, do primeiro ao último classificado. E querem ver quantos pontos tiveram ou qual a percentagem que conseguiram. Quanto tempo demoraram.

Quando a tarefa é assíncrona querem saber a avaliação antes do prazo estar terminado, por muito que eu diga que é mais correcto lançar as classificações todas ao mesmo tempo. Replicam-me que não é “justo” porque entregaram mais cedo e querem saber. E têm uma parte da razão e lá vou acedendo na libertação da “nota” que nem é o mais importante por estes dias. Se a pressão é familiar? Nem sempre, porque se percebe que há uma curiosidade natural na maior parte, mesmo se não é em todos. Claro que há quem prefira alguma privacidade, mas a maioria gosta de saber a sua posição relativa.

Ao contrário de algumas teses sobre a ansiedade que a avaliação impõe externamente aos alunos, eu estou mais familiarizado com a ansiedade e mesmo irritação quando a avaliação se atrasa e uma certa incompreensão quando eu enveredo pela conversa do “não se preocupem por enquanto com a avaliação, que não é o que me importa mais”. O olhar que me é dirigido em resposta é mais do tipo “despache-se lá com o código do quizz que eu estou aqui à espera, sem nada de mais interessante para fazer”.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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