DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 10 – Engarrafamento digital

Só é possível uma Capacitação Digital com um nível de investimento que vá para além das circunstâncias da pandemia e que não busque a solução mais em conta, até porque a manutenção é tão importante quanto a aquisição dos meios tecnológicos.
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A manhã de 3ª feira é um período complicado cá por casa e já o tinha referido a semana passada quando estávamos três em sincronias diversas. Ontem, as coisas fraquejaram e não houve largura de banda que aguentasse, pelo que duas das ligações, mesmo aquela que ganhou poiso ali defronte do router, andaram aos tropeções, às entradas e saídas de sessão, quase fazendo lembrar os tempos do modem de 56k dos idos remotos dos anos 90, quando consultar o mail do clix era uma aventura.

Quem tem essas memórias ganha uma resiliência (palavra que então nem se usava, era mesmo apenas paciência) enorme para enfrentar as agruras do mundo digital de fantasia que nos é vendido pelos gurus da Transição Digital, que parecem não entender que de nada adianta ter 5G se não existir meios para a maioria desfrutar de tamanha hiper-modernidade. Que me interessa o Ferrari, se não tenho como pagar o consumo? Ou melhor, de que me interessa dizerem-me que há Ferraris por aí, se são só para futebolistas de topo e “empreendedores” andropáusicos?

Já se percebeu, pelo contrato a dois anos assinado mesmo a acabar o ano de 2020, que os mais de 200.000 computadores anunciados pelo Ministério da Educação não chegarão em tempo útil e nada garante que sejam equipamentos com uma qualidade média indispensável para não ficarem obsoletos a curto prazo. A Transição Digital foi uma expressão criada para alimentar mera propaganda, porque ela só pode acontecer se existir a vontade e a força política para negociar com as operadoras de telecomunicações melhores serviços a preços mais adequados. Mas isso é difícil quando os negociadores públicos estão a pensar no seu futuro privado. Só é possível uma Capacitação Digital com um nível de investimento que vá para além das circunstâncias da pandemia e que não busque a solução mais em conta, até porque a manutenção é tão importante quanto a aquisição dos meios tecnológicos.

A solução mais recente foi empurrar para as autarquias a compra de alguns equipamentos e muitas foram (na primeira vaga) e são (agora) as que estão a corresponder, mas sabemos como são desiguais os meios financeiros à sua disposição, mesmo com comparticipação de fundos europeus. Mas também existem as que acham que esse não é o seu papel e fazem o mínimo possível. Curiosamente, não é raro que quase nada façam em nome da igualdade e da equidade.

A verdade é que tenho pena de entender porque esta conversa da Transição Digital dificilmente poderia dar em algo diferente. As promessas são sempre muitas no momento do anúncio público, mas as prioridades reais são sempre outras. Anunciam-se milhões em número ad hoc, com enorme pompa, que depois ficam cativados à espera que ninguém dê por isso. Cansa-me tanto entusiasmo nas encenações de um futuro ridente, quando se sabe que os amanhãs raramente cantam. E cada vez são menos velozes, em plena idade da velocidade.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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