DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 9 – De regresso aos limites

Estive a reler boa parte do que escrevi há quase um ano, durante a primeira vaga de E@D e a sensação de déjà- vu é incómoda. Parece que os problemas são quase os mesmos e ando a escrever em círculos, sem sentir que avançámos para algo diferente, aprendemos com as falhas ou repensámos práticas que provocaram um desnecessário desgaste.
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Um dos principais problemas que se verificou então foi o da multiplicação de contactos e solicitações, a qualquer momento, O “estar on” em modo 24/7. Como se as fronteiras entre a vida profissional e pessoal se tivessem esbatido quase por completo e o tempo privado tivesse desaparecido. Não apenas o espaço, com as aulas a entrarem pela casa de todos, mas o tempo a ser submerso pelas exigências de um E@D em processo de instalação. Uma multiplicidade de pedidos, ordens, imperativos, das escolas, dos encarregados de educação, dos alunos e de colegas que rapidamente se sentiram muito bem neste novo ambiente de interacção desregrada.

Na altura, expliquei que há algumas regras básicas que mantenho e que não aceito que sejam desrepeitadas sem uma emergência maior. Uma delas é a do uso do meu telemóvel para tratar de assuntos profissionais, muito menos com o meu número pessoal disponível para uso público. Já fui director de turma muitos anos e nunca algo de importante ficou por tratar por manter este limite traçado com muita clareza. Fui director de turma quatro anos de uma turma e em apenas dois casos usei o meu telemóvel para resolver casos de urgência maior. Um desses anos foi o último e não foi nele que o usei.

Mas é uma regra minha, que acho de bom senso elementar. Mas não a imponho aos outros, se é de modo diferente que gostam de agir. O que não aceito é que me digam que o meu método está errado sem apelo e o deles está certo. Que sem dar o nosso número a toda a gente as coisas não se resolvem ou que sem recorrer a grupos de WhatsApp a comunicação fica muito difícil. Perante isso, fico muito pouco sensível a que ao fim de algum tempo me surjam com o ar perturbado de quem não aguenta uma pressão adicinal que colocaram, em grande parte, sobre si mesmos.

Pensei que tivesse ficado claro na primeira vaga de E@D que a erosão acentuada das fronteiras entre o tempo privado e o tempo público, entre a esfera da vida pessoal e familiar e a da vida profissional tinha sido um dos factores que mais agravou fenómenos de stress e burnout. Mas parece que não, que estamos de volta ao final de março de 2020. Provando que pelo menos uma parte do corpo docente atingiu aquela fase do envelhecimento que afecta com razoável gravidade a memória de curto ou médio prazo.

Ou então que cada vez há uma menor capacidade de resistência ao que é um claro abuso sobre o uso do tempo. Ao que vai para lá do sobretrabalho, não deixando praticamente nada imune a intromissões. E que implica um preço muito alto a pagar em termos de saúde mental.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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