DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 8 – O Paradigma da Quantidade

Num período marcado pela singularidade das circunstâncias, os decisores na área da Educação esforçam-se por fazer MAIS, se possível o mais parecido com o mesmo do costume. Parece que há um horror em fazer diferente e uma completa incapacidade em pensar no que será MELHOR.
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O sol brilha, o cão do lado ladra aos homens que passam a caminho da obra que tem continuado a ser feita aqui perto, o trânsito flui lá ao longe, até já as algumas andorinhas apareceram. O confinamento existe, mas está longe de ser muito rigoroso. Perceb-se que o número de contágios diminuiu, para além de algumas questões sobre a quantidade de testes, em estreita associação com o fecho das escolas.

Ao longo dos últimos dias conheceram-se dados estatísticos algo paradoxais sobre a economia: que o desemprego não aumentou exponencialmente em 2020 e que até cresceu abaixo do que aconteceu no resto da União Europea. Que os salários médios subiram 2,9% no ano da pandemia, quando o PIB encolheu vários pontos percentuais.

Ou todos estes dados estão errados e a “ciência” económica é uma bata sem lógica e a estatística uma representação estranha do que nos rodeia (ideias bastante razoáveis para mim), ou então quase tudo o que nos têm dito sobre os efeitos dos confinamentos na economia está errado (pensando bem, esta ideia também tem a sua credibilidade).

A obsessão com os números é um traço de uma pós-modernidade que se afirma relativista e crítica dos excessos da objectividade, mas que não se liberta do paradigma da mensurabilidade e da quantidade.

Na Educação, esta obsessão é evidente.

Hoje, começamos MAIS uma semana de aulas não-presenciais, usando os dias que antes eram da pausa do Carnaval para se compensar parte dos dias da suspensão das actividades lectivas. São MAIS três dias de aulas, aos quais se juntarão MAIS um par deles na interrupção da Páscoa e MAIS uma semana no final do 3º período. Como se o MAIS fosse o relevante no actual contexto e apenas chegasse adicionar MAIS de algo para que os problemas se resolvessem. Excepto se forem mais meios tecnológicos para as escolas. Nesse caso, fica a lógica dos tempos da troika de fazer mais com menos ou com o mesmo.

Num período marcado pela singularidade das circunstâncias, os decisores na área da Educação esforçam-se por fazer MAIS, se possível o mais parecido com o mesmo do costume. Parece que há um horror em fazer diferente e uma completa incapacidade em pensar no que será MELHOR.

A quantidade há muito que substituiu o critério da qualidade. Por fazer mais, dá-se a entender que se faz melhor. E o interessante é que os obcecados com a sincronia a 100% nas escolas são em quase perfeita sobreposição aqueles (e aquelas, claro) que em outros momentos mais exibem o seu conhecimento superior e alargado em “inovação” e num “novo paradigma para a Educação”. Só acha estranho quem não percebe que o verniz não muda o caruncho na madeira, apenas acrescentando-lhe polimento exterior. Chega o vento da pandemia e desaparece logo e fica à vista a essência de sempre. A crença de que o importante é mostrar que se faz muito e se obriga os outros a também assim fazer, é registar tudo o que se fez, mesmo que muito tempo se leve no registo e não no acto, é monitorizar que se faz e avaliar em grelha o que se fez, monitorizar a avaliação e avaliar a monitorização. Como se isso lhes trouxesse uma segurança acrescida de que tudo está normal. O paradigma da quantidade como zona de conforto.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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