DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 7 – “Artistas” e Regressados

O regime não-presencial tem destas particularidades, que não se limitam a falta de equipamentos ou à adaptação de horários e metodologias de trabalho. Tem todo um outro nível de situações com que lidar e que exigem uma grande disponibilidade e capacidade de adaptação por parte das escolas e professores, no sentido de “ajustar” as práticas a esta nova diversidade.
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Ainda estou confuso com o anúncio de que vão chegar brevemente 15.000 novos computadores às escolas depois de ter ouvido um outro anúncio de que tinham sido comprados mais de 300.000. Mas começo a ficar repetitivo e já é bom que cheguem alguns, mesmo que sejam menos de 20 por agrupamento.

Quanto ao resto da semana, para além dos alunos que compareceram (a maioria), com maiores ou menores dificuldades e dos que não conseguiram aceder às sessões síncronas ou assíncronas (peso variável conforme as turmas, média a rondar os 15%), verificou-se o aparecimento de duas categorias, felizmente residuais para os meus lados, de alunos em contexto de E@D.

A primeira é a que eu gostaria de chamar de “artistas”; são aqueles alunos que têm algumas competências digitais, superiores às do resto do agregado familiar, e que se aproveitam disso para “desaparecer” das aulas à distância, dando as mais simples (“os professores não me mandaram nada”) ou fantasiosas (“na minha escola não há aulas à distância” ou “o meu computador não funciona com o sistema da escola”) explicações aos encarregados de educação. Quando se tenta contactá-los por telefone, ou o número dado não é já o activo ou arranjam mais outra explicação para desmentir o que é transmitido. A única forma é tentar que sejam os colegas a confirmar o que se passa, embora essa não seja a sua missão e em tempos de confinamento seja tudo mais complicado.

A segunda, de certo modo inversa, é a dos que regressam, após terem estado ausentes durante quase todo o período presencial, na sequência de situações alegadamente de risco, mas quase sempre sem qualquer documentação a comprová-la. São alunos que – e não gostaria de tomar o todo por algumas partes específicas – ganham muito com o regime de E@D porque agora lhes basta ligar o computador ou telemóvel para irem às aulas a que, no regime presencial, raramente ou mesmo nunca apareceram. Já me tinha acontecido o ano passado e voltou a acontecer agora ter de volta alunos que pareciam “desaparecidos em combate” no regime presencial, por mais “sinalizações” feitas à C.P.C.J. local.

O regime não-presencial tem destas particularidades, que não se limitam a falta de equipamentos ou à adaptação de horários e metodologias de trabalho. Tem todo um outro nível de situações com que lidar e que exigem uma grande disponibilidade e capacidade de adaptação por parte das escolas e professores, no sentido de “ajustar” as práticas a esta nova diversidade.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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