DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 6 – Tudo como dantes?

Uma semana é pouco tempo para se fazer um balanço sério, mesmo que preliminar, desta segunda vaga de E@D. Há muito por acertar, aperfeiçoar, quiçá melhorar, enquanto se espera que cheguem às escolas as cascatas de equipamentos cuja compra parece ter decidida quando se fizeram as contas aos dinheiros que sobraram por altura do Natal.
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Nos últimos dias da semana houve mais uma correria a fazer listas de alunos com escalões B e C de apoio escolar, com vista a uma futura distribuição de equipamentos informáticos, como se isso tudo não estivesse mais do que registado nas plataformas do Ministério da Educação. Fico sempre sem compreender para que se carregam as ditas plataformas de dados se a todo o momento se andam a pedir novamente os mesmos dados. Sente-se que existe uma evidente pulsão para este tipo de trabalho repetitivo redundante como se na 5 de Outubro se tivesse entrado permanente loop de procedimentos.

Também a finalizar a semana, foi publicado o novo calendário escolar para o presente ano lectivo, no qual se contemplam as novas datas para provas de aferição e provas finais do Ensino Básico e exames do Ensino Secundário. Com a excepção da eliminação de algumas já de si muito pouco relevantes provas de aferição do 2º ano, volta-se a ensaiar, como no ano passado, uma aparência de normalidade.

Ouvimos anos a fio as mesmas pessoas, grande parte delas agora no poder no Ministério da Educação, ou em seu redor, dos gabinetes e grupos de trabalho ao Conselho Nacional da Educação, a queixar-se do “velho paradigma” em que os exames têm um papel excessivo ou mesmo desnecessário na regulação e avaliação externa das aprendizagens, e nada se fez quanto a isso.

Mesmo eu, que não tenho qualquer problema em assumir a defesa da necessidade de uma avaliação externa dos alunos no fim de cada ciclo de estudos, considero que esta teria sido a “oportunidade” ideal para legitimar uma mudança das práticas e do “modelo” que tantos criticam em tese e em retórica para consumo público.

O ano lectivo passado ainda se poderia ter argumentado que estas mudanças não devem ser feitas sob pressão das circunstâncias, à pressa. Mas este ano é mais difícil afirmar isso, até porque quem está na posição de decidir, já lá está há mais de cinco anos e tem declarado, de modo repetido, que existe fundamentação empírica para mudar as práticas tão criticadas.

Não chegam tantos estudos internacionais, tanta “literatura” sobre o tema, tanta “evidência”? Então, o que os faz adiar essas medidas proclamadas como tão necessárias a uma “educação do futuro”?

A minha opinião é que a vontade de mudar efectivamente as coisas ficou como a promessa de equipamentos e conectividade móvel gratuita para os alunos logo no início do ano lectivo: para um dia destes, se possível de madrugada.

Será que acham que os alunos que passaram por estes dois anos lectivos tão instáveis devem continuar a colaborar na aparência de “normalidade”?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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