DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 5 – Civilidade Digital

Até ao momento, tenho conhecimento de menos casos de grave indisciplina digital, embora continuem a acontecer. Mas essa não é a única dimensão de um problema que, de qualquer maneira, ainda tem algum caminho a percorrer. Por parte dos mais novos mas também dos mais velhos, dos adultos que devem compreender o espaço próprio para cada tipo de intervenção.
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Um dos aspectos que parece estar a funcionar um pouco melhor nesta segunda vaga de E@D é o da civilidade digital. Não é bem o mesmo que literacia digital, mas é pelo menos um dos elementos que ajuda bastante a que as coisas corram bem nas aulas remotas. Relaciona com hábitos de segurança por parte dos próprios docentes, que perceberam da pior maneira que as suas aulas podem ser devassadas quando são completamente “abertas”, havendo pequenas rotinas de prevenção que podem diminuir os riscos. São menores os testemunhos de entradas abusivas em vídeo-conferências ou de puro gozo ou bullying por parte de alunos com maiores competências digitais e pouco respeito por regras fundamentais da etiqueta ou civismo.

Até ao momento, tenho conhecimento de menos casos de grave indisciplina digital, embora continuem a acontecer. Mas essa não é a única dimensão de um problema que, de qualquer maneira, ainda tem algum caminho a percorrer. Por parte dos mais novos mas também dos mais velhos, dos adultos que devem compreender o espaço próprio para cada tipo de intervenção.

Continuam a existir situações de incompreensão parental perante o que é uma aula à distância e que uma sala de aula virtual deve merecer uma atitude semelhante a qualquer outra sala e que, se na escola física, os alunos são deixados no portão e vão até às suas salas para trabalhar com o seu grupo de colegas e professores, não é por estarem em casa que essas salas passam a ser espaços públicos, no pior sentido.

É compreensível que muitos (professores incluídos) sejam os que não têm propriamente um estúdio em casa, onde podem ficar imunes a todos os ruídos e rotinas familiares. É normal que existam outras pessoas por perto, pais, irmãos, familiares, em teletrabalho ou não, também em aulas ou não. Não é de estranhar uma certa porosidade entre as salas virtuais e as casas onde passaram a estar instaladas. A minha gata, por exemplo, não gosta de me ver a falar aparentemente sozinho. Mesmo ouvindo vozes a sair do computador, deve parecer-lhe estranho, pois eu não costumo entrar em diálogo com a televisão. E protesta de forma bem sonora e audível.
Algo diferente é quando temos adultos a querer intervir sobre o decorrer das aulas ou a interpelar os professores sobre a condução das ditas cujas. Ou a usar a identidade d@s alun@s para dar recados de forma absolutamente imprópria.

Quem, em tempos “normais”, deixa @s educand@s no portão e @s vai recolher horas depois, chegando a protestar quando essa rotina é perturbada por qualquer inconveniência, talvez devesse pensar duas vezes (ou mesmo apenas uma) antes de irromper de forma desabrida numa qualquer classroom de um modo que revela evidente falta de boas maneiras básicas à mesa, na hora do chá ou em qualquer outra. Sim, eu sei que há quem, em momentos de desvario, entre pela escola dentro para pedir esta ou aquela satisfação. Só que agora esse tipo de atitude está ali mesmo à mão de semear. Quantas vezes embaraçando e desautorizando a própria criança. Revelando que ainda não aprendeu o que os mais pequenos já entenderam. Há um tempo e espaço para tudo e é exactamente em tempos de maior incerteza que nos devemos conter para não contribuir para maior confusão.

Também sou encarregado de educação mas nunca me passou pela cabeça ir meter a colherada em sala alheia. Pena é que quem parece ter tanto saber a partilhar, conselhos ou mesmo ordens a dar, careça da mais básica civilidade, seja ela digital ou outra.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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