DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 4 – As Pequenas Coisas

O elemento humano continua insubstituível em contextos educacionais e os meios tecnológicos são extensões suas, destinadas a melhorar o seu desempenho, não a substituí-lo.
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Tornou-se um lugar comum nos últimos meses afirmar que nada substitui o ensino presencial e a presença física dos professores na sala de aula com os seus alunos. Não é nada que a larga maioria de uns e outros não soubessem há muito. O estranho é que tanta gente, exterior ao quotidiano diário das escolas, muitas vezes apresentada como sendo especialista ou “perita” em Educação, declarasse o contrário e anunciasse com tanta insistência o fim a sala de aula tradicional e o papel do professor arcaico, herdado de modelos de outros tempos que seriam incompatíveis com o século XXI.

O que estes meses nos revelaram, com destaque para os alunos mais pequenos, é que os mundos virtuais não são os mais adequados e satisfatórios para o desenvolvimento das aprendizagens e que os ganhos permitidos pelos ambientes digitais não compensam as perdas do desaparecimento do elemento humano. A sala de aula é um espaço físico em que se desenvolve mais do que a mera relação pedagógica, sendo, para além da família, o grande laboratório em que crianças e jovens desenvolvem a sua socialização e aprendem a relacionar-se com os outros em toda a sua diversidade que os ecrãs tornam unidimensional.

Que esta seja uma lição que fique e que não seja apenas um oportunismo a que se recorre para evitar um investimento sério no equipamento das escolas. O elemento humano continua insubstituível em contextos educacionais e os meios tecnológicos são extensões suas, destinadas a melhorar o seu desempenho, não a substituí-lo.

Isso nota-se muito nos meus alunos de 5º ano e foi o que de melhor tiveram estes dias, ao perceber-se que eles queriam muito estar de novo uns com os outros e - pasme-se! – com os seus professores. E expressaram-no com uma candura que os adultos evitam. Manifestaram a frustração que voltaram a sentir e procuraram de forma ávida encontrar os pequenos sinais de que uma sessão síncrona ainda tem qualquer coisa da sala de aula habitual. O ensino não-presencial não deve replicar os horários e metodologias do presencial, nem o consegue sem falhar de forma dramática, mas deve manter pequenos sinais, pequenas rotinas, âncoras que o relacionem com as aulas tradicionais.

Foi divertido reparar como o aluno que sempre tirava a garrafa de água da mochila e a colocava em cima da mesa, agora faz o mesmo diante da sua câmara; ou como a aluna que sempre tinha necessidade de ir à casa de banho a meio das aulas, agora o voltou a fazer, replicando o pedido ao professor para se ausentar como na sala física. E como nesses momentos, eu dei-lhe 3 minutos para o fazer e, apesar de estar em casa, ela arrancou velozmente como se fosse ao wc escolar ao fundo do bloco. Como os alunos procuraram no professor os sinais de voz (com as máscaras as expressões faciais ficaram muito limitadas) que servem como uma espécie de semáforo para certas atitudes.

Nem tudo foi penoso neste regresso, porque quase todos procuraram reconhecer-se e reconhecer os outros, revelando o quanto, contra tanta “opinião especializada” ou apenas preconceituosa, acabam por gostar de estar na escola e nas próprias aulas. Ao ponto de nela entrarem logo que a ligação (neste caso do Meet) surge disponível. Que pena que isto, assim que a pandemia passe, possa vir a ser novamente ignorado.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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