DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 3 – Incompreensões

Ao fim de dois dias desapareceu qualquer sensação de novidade e já regressou um pouco do ambiente de Abril-Maio do ano passado. O reencontro em forma de mosaico no ecrã, que despertou alguma satisfação inicial, deu de forma rápida lugar, em muitos casos, a interrogações diversas e incompreensões naturais
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Desde logo, a interrogação sobre quanto tempo se espera que estejamos assim. A resposta mais prudente é dizer que ainda não sabemos e o mais provável é durar até final do 2º período. Os mais pequenos ainda não se preocupam em seguir as intervenções públicas de especialistas na área da epidemiologia ou dos decisores políticos, por isso não ficam ainda mais confusos com o que é dito na sequência das reuniões no Infarmed (que só com dois meses se conseguirá ter uma situação controlada de forma consolidada) e as intervenções do ministro da Educação (que parece zangado pessoalmente com o fecho das escolas e já anda a anunciar a sua abertura). Mas os adultos que procuram estar informados arriscam-se ao desespero com esta esquizofrenia perante a pandemia, a mesma que nos trouxe até aqui.

O que todos parecem ver são as peças televisivas que, numa proporção desequilibrada, mostram duas ou três peças em que se preparam e distribuem computadores nas escolas ou mostram famílias, felizes e sorridentes, a abrir portas a enviados das autarquias com equipamentos em sacos generosos, por cada reportagem em que se retratam os problemas que muitos já enfrentam. Os casos em que, havendo várias crianças em idade escolar e um ou dois adultos em teletrabalho, nenhum equipamento singular e ligação básica à net consegue satisfazer as necessidades. Mas que vêem na televisão dedos ágeis a deslizar sobre ecrãs de tablets de razoável qualidade.

Este desequilíbrio na representação da realidade, com a sua evidente “boa intenção” de transmitir uma mensagem de “esperança” e “positividade”, acaba por produzir incompreensão e frustração em quem não se sente retratado e pensa que está a ser discriminado. E interroga quem está mais próximo, nem sempre compreendendo que a culpa não é de quem também partilha dessa mesma frustração e mesmo uma inegável fúria contra quem, mesmo agora, acha que se pode escapar com uma nova vaga de remendos. Que é o que está a ser feito, ao irem-se buscar os velhos portáteis do e-escolinha e e-escola com mais de uma década. O salto para a escola do século XXI com equipamentos do passado, já razoavelmente obsoletos para quem fala tanto em transição digital.

A incompreensão alastra a professores que ouviram falar num muito ambicioso plano de “Capacitação Digital” e que foram empurrados de forma insistente para o preenchimento de um questionário sobre o que seriam capazes de fazer, acaso tivessem as condições necessárias, mas que continuam sem essas condições e ouvem falar de tal formação à distância, mas que tem como única certeza a de que a maioria dos formadores e embaixadores são os de sempre e que muito pouco de novo os esperará, se tiverem a sorte de ser chamados em tempo útil.

Isto não significa que não existam casos de gente feliz sem lágrimas a quem tudo está a correr bem por estes dias e que têm a total confiança num futuro risonho para si e os seus alunos, todos capacitados e equipados, prontos para inovações mil com satisfação garantida e monitorização a preceito. Não posso negar, nem que seja para equilibrar as representações do quotidiano do E@D, que isso também acontece, porque tenho testemunhos de quem diz que tudo está a correr bem, melhor do que em Março e com perspectivas de dias de radiosas aprendizagens,

Mas, nem que seja a bem de alguma terapia, convém não esquecer que quase tão mau como ficar para trás é a percepção que se esqueceram de nós e do que nos rodeia.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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