DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 2 – A Primeira Prova

Atrasos no acesso, saídas e entradas sucessivas nas sessões, delay nas comunicações, congelamento das imagens, som aos soluços. Nada de inesperado, tudo situações com que teremos de nos habituar a conviver, aumentadas pela súbita exigência de se querer que todos estejam com as câmaras ligadas.
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Ontem, terminei o texto a falar na necessidade de acreditar em magia, mas vai ser hoje que a realidade vai ser testada de modo mais severo. Ontem, cada um de nós teve aulas síncronas de forma quase completamente desfasada, mas hoje quando forem 10 horas estaremos todos em simultâneo online, esperando que tudo se aguente e que a ligação contratada esteja á altura da publicidade.

Ontem, houve coisas boas e outras nem tanto. A presença de alunos foi muito positiva, a atingir o máximo possível nestas condições (85-90% nas minhas turmas de 5º ano, pelo menos 90% nas de Secundário da melhor metade do casal, quase 100% na da herdeira da casa), faltando quem ainda não recebeu equipamento e não o tinha mesmo e apenas mais um ou outro aluno que, à última hora, enfrentou problemas “técnicos”. E foi essa a parte “nem tanto”, porque se estávamos muitos em sincronia, a qualidade das sessões nem sempre foi a melhor, com as muito esperadas falhas de rede.

Atrasos no acesso, saídas e entradas sucessivas nas sessões, delay nas comunicações, congelamento das imagens, som aos soluços. Nada de inesperado, tudo situações com que teremos de nos habituar a conviver, aumentadas pela súbita exigência de se querer que todos estejam com as câmaras ligadas. O que tem algumas (poucas, para mim) válidas no caso dos alunos mais pequenos, mas evidentes desvantagens do ponto de vista da dispersão da atenção e da própria qualidade da sessão.

Se é verdade que neste momento foi importante reatar o contacto visual, voltarmos a ver-nos, desta vez em modo sem máscara pela primeira vez desde Setembro, por outro lado, daqui para diante vai ser necessário controlar o que um mosaico com mais de 20 rostos implica de estímulo à distração relativamente às explicações essenciais a que era necessário estar atento pelo menos alguns minutos. O chat do Classroom teve de ser desactivado ao fim de poucos minutos, porque para alguns era muito maior o interesse na troca de saudações e picardias do que propriamente no que se estava a passar na “aula”. Se na sala física há quem tenha alguns rostos e muitas costas de colegas ao alcance da vista, agora estão ali todos diante de si, acessíveis para brincadeiras, esgares, provocações, mesmo com o tal delay nas reacções.

Ainda há quem não perceba muito bem que uma coisa é a “literatura” sobre o ensino remoto para adultos ou mesmo alunos mais velhos e outra a realidade a cores e aos pulos, mesmo que virtuais, do convívio entre 25 petizes confinados.

Uma outra questão que vai surgir com maior relevância a cada novo dia, como já aconteceu na primeira vaga do E@D é o transbordamento das “salas de aula” para a sala (quarto, cozinha, escritório) de cada casa e a sua vulnerabilidade aos olhares e ouvidos de todos os que por ali passem ou ali fiquem, seja com a melhor das intenções, seja à procura de uma oportunidade para encontrar qualquer coisa para uso menos devido. Ao fim do dia, João Araújo, da Sociedade Portuguesa de Matemática, numa intervenção televisiva, chamava a atenção para a vulnerabilidade de todos, em especial dos docentes, neste modelo de ensino em que a sala de aula passou a estar ao dispor de toda a gente. E em outro debate em que participei falou-se no facto de, em regime presencial, a sala de aula ser um espaço de trabalho de um grupo e não um campo aberto ao olhar de todos os transeuntes. Que nem sempre têm os melhores hábitos de civilidade, como se pode verificar numa simples ida ao supermercado em tempos de “cansaço com a pandemia”.

Mas essa é toda uma outra questão que fica, por enquanto, em observação.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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