DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 1 – O Regresso Possível

São quase 9 horas, cá por casa já arrancou a segunda vaga de E@D. Assim como obras em casa próxima, matinais, vigorosas, com bela sonoridade, a céu aberto a entrar-nos pelas janelas. É cruzar os dedos e acreditar em magia.
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São 8.30 e a filha está prestes a começar a sua primeira sessão da segunda vaga de E@D, mesmo se a verdade é que durante as duas semanas de alegadas “férias” nunca parou verdadeiramente de ter aulas ou sessões ou o que lhe queiramos chamar. Ao contrário de certa sabedoria publicada, os professores não estiveram a desfrutar de uns dias de descanso e muitos alunos, em especial do secundário, também não.

Daqui a um par de horas será o pai a reencontrar as minhas turmas de 5º ano, em videoconferência, com quem tenho contactado apenas por mail. Ao início da tarde será a mãe a recomeçar os trabalhos formais com as suas turmas de 10º e 11º anos, após dias de preparação de tudo numa das plataformas da moda para o efeito. Hoje é um dia razoável, porque não estaremos em “sincronia” e até poderíamos ter apenas um ou dois equipamentos.

Mas amanhã será diferente. Pelas 10 da manhã, estaremos todos em duplas sincronias. Temos a sorte de ter os meios indispensáveis para assegurar ao Ministério da Educação que este novo período de E@D vai funcionar cá em casa sem qualquer investimento público. Mesmo se as baterias mais antigas já precisam de estar sempre agarradinhas à tomada e se cruzamos os dedos para que a net não nos falhe ou deixe congelados ali no ecrã, porque agora parece que essa coisa da privacidade dos dados está em pausa e em todo o lado se quer obrigar alunos e professores a dar literalmente a cara.

A esperança é que isto dure pouco e seja possível voltar ao regime presencial em poucas semanas. Os dados de descida do número de contágios são algo animadores e são o resultado, em grande parte, da redução significativa da mobilidade que o fecho das escolas permitiu. Eu gostaria que ainda antes da Páscoa fosse possível um regresso faseado às escolas porque, de novo ao contrário da tal sabedoria publicada, não gosto desta alternativa, muito menos quando parece que estamos quase a voltar a Março passado, com poucas aprendizagens feitas quanto ao que correu claramente mal na primeira vaga de E@D e se percebe que o poder político fez pouco do que prometeu quanto à preparação do que muitos sabiam ser inevitável.

Dizem-me que não é tempo para queixas, mas para nos unirmos e avançarmos. Sim, é o que estamos sempre a fazer. Alunos e professores. A avançar destemidos, já não para o desconhecido, mas para terreno que conhecemos estar minado. No fim de semana vi pelo menos uma reportagem sobre uma escola onde se andaram a recuperar velhos Magalhães, perfeitamente obsoletos para a prometida Transição Digital e apresenta-se isso como exemplo da imaginação a que foi necessário recorrer para suprir parte das evidentes falhas ao nível dos equipamentos disponíveis. Em outras, andaram-se a preparar em modo acelerado “kits tecnológicos” que chegaram nas vésperas do Natal, apesar de prometidos para Setembro.

Ao longo dos últimos dias tenho tentado transmitir aos encarregados de educação da minha direção de turma (5º ano, cheia de miudagem que detestou a primeira vaga de E@D) que esta é uma semana de tipo “experimental”. Que quem não tem ainda equipamentos operacionais (só chegaram 4 kits para uma turma de 27 alunos com uma dezena com apoio social escolar) ou está com dificuldades em assimilar as novas regras e horário, não fique ansioso ou preocupado. Haveremos de nos “desenrascar”, porque é mesmo essa a aposta do Ministério da Educação. Os professores são apresentados como polvilhados dos mais variados defeitos (de falta de formação a excesso de idade), mas sabe-se que a maioria fará os possíveis e um punhado de impossíveis para que isto funcione.

São quase 9 horas, cá por casa já arrancou a segunda vaga de E@D. Assim como obras em casa próxima, matinais, vigorosas, com bela sonoridade, a céu aberto a entrar-nos pelas janelas. É cruzar os dedos e acreditar em magia.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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