PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

Desdramatizar é preciso

O regresso ao ensino presencial deve acontecer logo que as questões de segurança sanitária o permitam; se isso demorar, devem assegurar-se as condições indispensáveis para que o ensino remoto funcione (e foram essas condições que, apesar de muitas promessas, não foram atempadamente garantidas).
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

A entrada num segundo período de confinamento mais rigoroso só foi possível com o encerramento das escolas. A decisão tardou, adiada por imperativos estranhos à Saúde Pública ou à própria Educação, mas a sua necessidade já se tinha tornado mais do que óbvia desde o início do segundo período.

Apesar de tudo o que foi feito nas escolas, só a não divulgação dos dados de forma transparente ou a sua truncagem poderia esconder que tínhamos cada vez mais turmas em isolamento, assim como professores, não sendo muito relevante a questão do contágio ter acontecido nas escolas ou não, até porque foi divulgado que só em pouco mais de 10% dos casos se conhece a origem da cadeia de transmissão.

Um outro aspecto que também foi prejudicial para a confiança de todos (pais, alunos, professores, pessoal não docente) foi o conhecimento que, embora existam protocolos as regras seguidas em casos semelhantes foram diversas, conforme a autoridade de saúde local envolvida. Com conhecimento em primeira mão do modo como as situações foram tratadas em três concelhos, estou em condições de confirmar isso mesmo. Na localidade A, um caso positivo implicava o isolamento de toda a turma, enquanto na localidade B iam os alunos mais próximos de acordo com a planta da sala de aula na maioria das disciplinas, ignorando o contacto directo diário fora da sala. Em situações mais anómalas até aconteceu ir só o aluno que testou positivo.

Durante um par de semanas, com o avolumar do número de óbitos e novos contágios, perdeu-se tempo precioso a discutir irrelevâncias em tom dramático e a ensaiar mini-confinamentos, que depressa se percebeu não serem levados muito a sério, enquanto as escolas continuassem abertas para 1,3 milhões de crianças e jovens, com tudo o que isso implica de mobilidade das famílias e uso dos transportes públicos.

Até que chegou a decisão de encerrar as escolas. Tarde, mas chegou. Mas chegou de um modo que acabou por provocar uma dramatização acrescida. Ao encerrar todos os ciclos de escolaridade, suspendendo todas as actividades lectivas e não lectivas, incluindo as não presenciais, sem se explicar com clareza a razão para medida tão radical, abriu-se ainda mais a porta para discursos que apresentam a medida como um “falhanço nacional”, causador de “perdas irreparáveis” para o que alguns cronistas qualificam como uma “geração perdida”. Isso e muito mais, tudo por causa de duas semanas com as escolas fechadas.

Se é inegável que o fecho das escolas é indesejável e que o ensino presencial se revelou bem mais eficaz do que todas as teorias futuristas de uma Educação Digital anunciaram, também parece algo exagerado apresentar esse fecho como uma catástrofe geracional, quando em apenas uma semana (de 18 a 24 de Janeiro) se registaram mais de 1600 óbitos causados directamente pela pandemia. A carga de dramatismo colocada na suspensão das actividades lectivas atingiu níveis hiperbólicos, com expressões como “a destruição do futuro de uma geração” ou variações em torno do sacrifício que é para as famílias ficarem com as crianças em casa por 15 dias.

Se é evidente que vivemos uma situação dramática, quer-me parecer que ela se encontra mais nos lares de idosos com surtos mortíferos de COVID-19 ou na acumulação de cadáveres em contentores nos hospitais, não propriamente na casa das famílias, mesmo das “mais desfavorecidas”, como se tornou quase um chavão em algumas vozes mais histriónicas a este respeito. Nada se ganha com isso, perdendo-se bastante em lucidez.

O regresso ao ensino presencial deve acontecer logo que as questões de segurança sanitária o permitam; se isso demorar, devem assegurar-se as condições indispensáveis para que o ensino remoto funcione (e foram essas condições que, apesar de muitas promessas, não foram atempadamente garantidas). E devemos aplicar tudo o que se aprendeu entre Março e Junho do ano passado. O problema é que os adultos nem sempre cumprem aquilo que gostam de exigir aos mais novos. E é muito comum que sejam lentos a admitir as falhas, a assumir responsabilidades e a alterar as práticas. Era bom que o fizessem. Sem dramatismos desnecessários.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.