PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

O Futuro ainda não chegou

O ano de 2020 esteve longe de nos trazer um futuro radioso. Há que lidar com isso com lucidez, clareza, racionalidade e muita exigência. E o ano de 2021 deveria ser um ano decisivo para que não se prolongassem as promessas equívocas acerca de um futuro cuja chegada tem sido anunciada com demasiada precipitação.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

O ano que terminou demonstrou até que ponto muitos discursos sobre “a Educação do Futuro” se encontram deslocados da realidade de grande parte do país, não passando da projecção de concepções de pessoas ou grupos com agendas ideológicas (ou de interesses económicos) que têm pouca “ancoragem” (como agora se diz) nas condições concretas da sociedade portuguesa.

Embora isso não fosse novidade para quem tem um conhecimento mínimo do nosso país e das condições de vida de grande parte da população e não se fica pelas estatísticas sobre a “penetração dos meios digitais”, número de telemóveis em circulação ou contas nas redes sociais, parece ter sido inesperado para alguns decisores que a população escolar não está em condições de uma “transição digital” nem que seja em moderada velocidade, podendo agravar-se desigualdades que mesmo em condições “analógicas” são por demais evidentes.

O futuro também não chegou em 2020 à comunicação política em torno destas questões, continuando a preferir-se a encenação mediática, a truncagem da informação e as promessas sem intenção de cumprimento a um novo tempo em que se abandonem os oportunismos, os malabarismos semânticos ou a simples agressividade descabida (em casos como os do ministro da Educação quando é mais “apertado” e fica sem capacidade de resposta), em favor de alguma seriedade e rigor. O exemplo mais claro é o dos anúncios de centenas de milhões para assegurar uma “Transição Digital” nas escolas, de que chegaram migalhas ao fim do primeiro período. Os 100.000 kits tecnológicos são insuficientes para uma população escolar que tem mais do dobro dos alunos em situação de exclusão digital já demonstrada. As somas anunciadas permitiriam muito mais do que formações de bastidores para a “Capacitação Digital dos Docentes”, pois para se poder usar e aplicar os meios digitais é necessário estar em condições de a eles aceder. O primeiro problema é o do “acesso” e esse está longe de estar assegurado. Mesmo ao nível das escolas em que a generalidade dos computadores (desktops) nem dispõe de webcams.

Por fim, por agora e para não prolongar uma crónica que seja criticada por demasiado “negativa” quando até temos horas de directos televisivos em salas de vacinação para transmitir “confiança”, há o assustador salto para o passado que constituiu a adesão de muitos professores (entre outros profissionais com qualificações académicas superiores) ao irracionalismo anti-científico, com o pretexto de se estar a exercer o direito à liberdade de expressão e crítica do “discurso dominante”.

Ora bem… eu estou habituado a ser considerado demasiado “crítico” e em ver demasiado o lado negro das coisas, mas há linhas que separam com alguma clareza o que é ser “crítico” com argumentos e factos de ser apenas adepto de teorias conspirativas que extrapolam uma “verdade alternativa” de um pequeno segmento da realidade.

Exemplifico: acho perfeitamente razoáveis e justificáveis as críticas às estratégias de negócio (e lucros que se adivinham muito substanciais) de parte da indústria farmacêutica durante a pandemia, mas já acho que é do domínio do irracional passar-se disso para as teses anti-vacinas e para a negação dos avanços da Ciência nos últimos dois séculos. Assim como considero da maior razoabilidade e necessidade a denúncia dos excessos securitários e de vigilância electrónica dos cidadãos pelos Estados em nome da Saúde Pública, mas já me parece um disparate passar disso para a afirmação de que não são necessárias medidas de segurança para evitar a propagação de contágios. Porque existe um ponto a partir do qual me parece não existir retorno possível a um debate que se queira racional e crítico de uma forma eficaz.

O ano de 2020 esteve longe de nos trazer um futuro radioso. Há que lidar com isso com lucidez, clareza, racionalidade e muita exigência. E o ano de 2021 deveria ser um ano decisivo para que não se prolongassem as promessas equívocas acerca de um futuro cuja chegada tem sido anunciada com demasiada precipitação.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.