A PARTIR DA INTENÇÃO

Sete perguntas que deves fazer antes de dar prémios e recompensas

Antes de saberes se um sistema de recompensas é uma coisa certa na relação que tens com o teu filho, reflete sobre as tuas intenções e os teus valores.
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De vez em quando sonho com o dia em que os meus filhos irão fazer tudo o que lhes peço à primeira, sem questionarem, sem fazerem de conta que não estão a ouvir, sem protestarem, sem dizerem «Mas vou só…» ou «Mas o meu irmão ainda não arrumou as coisas dele»… ou outra coisa qualquer.

Às vezes fico tentada a chantagear (sim, porque é disso que se trata) os meus filhos para fazerem algo que para mim é importante naquele preciso momento. E por vezes ainda o faço… Ainda noutro dia, quando achei que o meu filho mais pequeno precisava mesmo de cortar o cabelo, ouvi-me a dizer «Olha, se concordares cortar o cabelo hoje, podes comer chocolate.» A frase mal tinha saído da minha boca e já a minha filha gentilmente me recordava que chantagens não é algo que queremos na nossa família. Ainda me tentei justificar, mas a minha filha apenas respondeu com um olhar e com um firme «Não, mamã, chantagens nunca!».

Houve também uma altura, há uns anos, em que decidi implementar um sistema de recompensas. Achava que a minha filha, que na altura tinha 5 anos, deveria adormecer sozinha. Desenhei um quadro todo bonito, que representava 10 dias e que no fim tinha um recorte de um castelo da Barbie que a minha filha queria muito na altura – achava eu. Quando penso na situação, agora percebo que quem estava entusiasmada e cheia de vontade de ter mais tempo para si própria era eu. Mas de volta ao quadro: durante três dias, a minha filha lá adormeceu sozinha, com alguns protestos. No quarto dia teve um verdadeiro “colapso”, pedindo-me, entre lágrimas, que ficasse lá com ela.

E percebi. Percebi a loucura que estava a cometer. E fiquei. Percebi que me estava a dedicar a uma manipulação para conseguir preencher as minhas necessidades, sem ter em conta as necessidades da minha filha. E, naquele dia, a necessidade de conexão e ligação dela era tão forte que se sobrepôs ao desejo de ter um castelo da Barbie e ao desejo de satisfazer a mãe. O que eu me tinha esquecido era de explicar à minha filha a real intenção por trás do facto de eu querer que ela adormecesse sozinha. Não tinha nada que ver com ela; tinha apenas que ver comigo e com a minha necessidade de ter mais tempo para mim. Ao ver o desespero da minha filha, ao ver as emoções todas que estavam a vir à superfície apenas por causa de um quadro bonitinho, percebi verdadeiramente quão perigoso um sistema desses pode ser – para a autoestima da criança e para a relação entre pais e filhos.

A minha intenção era muito boa. Ao mesmo tempo que iria conseguir satisfazer uma necessidade minha, a minha filha ia aprender a adormecer sozinha e, ainda por cima, ia receber uma coisa que ela queria muito. Era totalmente “ganha-ganha”… mas afinal não era nada! Era mesmo “perde-perde”! Porque afinal a minha filha já sabia adormecer sozinha, só que preferia ter uma pessoa ao seu lado. É uma menina com uma grande necessidade de ligação e conexão, e finalmente percebi que o momento de adormecer era a melhor compensação pelo dia que não tínhamos passado juntas: eu a trabalhar e ela na escolinha. Então, fez-se luz (algo que agora parece tão óbvio), e perguntei o que é que ela achava de lermos a história, apagarmos a luz e eu ficar ao lado dela alguns minutos e depois sair. Ela olhou para mim e, já sem lágrimas, sorriu, deu-me um abraço e disse: «Parece-me bem, mamã». E assim foi, e assim tem sido.

Podemos questionar e refletir muito sobre os sistemas de recompensas, mas a verdade é que estes sistemas podem realmente funcionar. E quando temos a experiência de que funcionam, claro que temos tendência para acreditar no sistema e para promover ainda mais a sua implementação.

Gostaria que refletisses sobre algumas coisas:

Por que razão quero que o meu filho faça o que eu pretendo?
Quero que o meu filho faça algo porque ele quer ou porque respeita as necessidades das outras pessoas? Quero que o meu filho levante a mesa porque recebe dinheiro para o fazer ou porque ele realmente quer contribuir para o bem-estar da família?

Quero que o meu filho se guie pela motivação intrínseca ou pela motivação extrínseca?
Quando a criança se habitua a ser premiada pelo bom comportamento, começa a ser guiada por coisas exteriores, pela vontade de receber algo em troca. A motivação torna-se completamente extrínseca, e isto irá replicar-se nas outras áreas da vida da criança.
É extradesafiante para os pais saírem dos padrões de recompensas se a motivação intrínseca deles estiver desconectada!

Quero que o meu filho se torne dependente de recompensas como forma de reconhecimento?
Pondera por uns momentos esta história (que é verídica). Uma mãe vai buscar o filho à escola e o filho está muito em baixo. Na escola do filho, a professora dava os meninos pontos pelo bom comportamento. Quando alguém fazia algo bom por um colega, poderia colocar um berlinde num frasco que era da turma toda. Quando o frasco estivesse cheio, a turma toda iria receber uma recompensa. Nesse dia, o menino tinha partilhado a sua fruta com um coleguinha que se tinha esquecido da fruta em casa. O menino tinha a certeza de que iria receber um berlinde pelo ato. Mas a professora não lhe deu nada, e agora o menino estava muito triste. As palavras da mãe sobre como ele tinha sido muito carinhoso e simpático não valiam nada. Ele não recebeu um berlinde.
A aprendizagem do menino parece ser: quando o bom comportamento não é reconhecido publicamente com uma recompensa, não conta. A sensação pessoal e interior de que fiz algo bem não chega!

Quero que o meu filho utilize recompensas e prémios comigo, com os irmãos ou com outras pessoas?
Muitas vezes, as crianças começam a utilizar a mesma estrutura que lhes é imposta. Se calhar já ouviste coisas como: «Podes jogar na minha Playstation se primeiro arrumares a minha roupa.» ou «Mamã, dá-me sumo e eu dou-te um beijinho.
Não, filho, vais ter de ir buscar o sumo sozinho.

Então, não te dou mais beijinhos!»
Quando começamos a reparar que estes padrões aparecem nas relações entre irmãos, normalmente começamos a reagir: «Não chantageies o teu irmão! Ele só faz se quiser!» Se isso nos incomodar, é bom percebermos a razão deste comportamento (além dos pais, claro que pode ser aprendido com outros familiares ou na escola!).

O que acontece quando a criança não segue o plano?
No caso da minha filha, ela não conseguiu seguir o plano até ao fim. Isso afetou-a de várias formas: sentiu-se incapaz e triste com ela própria, sentiu que me tinha desiludido e estava triste porque já não ia receber o tal desejado castelo da Barbie. As regras do jogo eram que ela tinha de adormecer 10 dias seguidos sozinha para receber o castelo e, se não conseguisse, começaria de novo. Aconteceu que a vontade de ela ter alguém ao lado era muito maior do que qualquer prenda que lhe poderia oferecer. E agora?
Muitas vezes também impomos uma escolha à criança. Inicialmente é provável que ela escolha o caminho para a recompensa, mas, quando afinal decide optar pela outra alternativa (após ter experimentado a primeira), começamos a julgar: «Mas assim não vais receber o castelo da Barbie. Tu disseste que querias muito e agora não estás a cumprir o acordo.», e, de repente, a criança constata que afinal não é livre de escolher, e fica muito confusa.

Quero abrir espaço para negociações sobre recompensas?
Uma criança que se habitua a sistemas de recompensas vai quase obrigatoriamente começar a negociar. Vai pedir dois euros em vez de um para fazer a cama. Vai começar a sugerir/exigir recompensas para mais coisas. A criança começa a comunicar: «O que é que eu ganho com isso?»

Como é a relação entre ética e recompensas?
Gostava de partilhar mais uma história contigo. Um dos alunos de uma professora tinha muita dificuldade em chegar a horas após os intervalos. Ela combinou com o menino que, se ele chegasse a horas dez vezes seguidas, seria o delegado da turma no mês seguinte. O menino ficou muito contente com a possibilidade de ser delegado da turma e foi uma motivação extrínseca muito eficaz para ele se esforçar a chegar a horas. Um dia, o menino estava a brincar às apanhadas com uma colega, no recreio. Estavam a correr, e a menina caiu e perdeu o sapato. O menino ia ajudá-la, mas, entretanto, tocou. O menino parou e exclamou: «Já tocou, tenho de ir!», e virou costas, correndo para a sala de aula.

Antes de saberes se um sistema de recompensas é uma coisa certa na relação que tens com o teu filho, reflete sobre as tuas intenções e os teus valores. Será que, fazendo estas perguntas todas, tendo em conta as tuas intenções e os teus valores, isto continua a fazer sentido?

Sei que algumas pessoas vão pensar que estes sistemas existem na vida real, que as empresas funcionam assim e que até são fundamentais. Contudo, a investigação relacionada com a motivação demonstra claramente que a motivação extrínseca não funciona ao longo prazo.

Além disso, queremos mesmo ter um sistema desses entre nós quando pretendemos criar relações saudáveis?

Imagina que o teu parceiro um dia te diz: «Acho que te estás a deitar demasiado tarde e precisas mesmo de dormir mais. Durante as próximas duas semanas vais ter de te deitar pelo menos uma hora mais cedo, caso contrário não iremos passar aquele fim de semana fora que tínhamos planeado.»

A escolha é tua, como sempre.

Pondera bem se um sistema de recompensas realmente compensa. 

(Se sentes vontade de entender melhor o que significam os valores da parentalidade consciente, está tudo explicado no meu livro Educar com mindfulness na adolescência).

Mikaela ÖvénEstudou ciências comportamentais na Universidade de Lund, Suécia, e é licenciada em Recursos Humanos com a especialidade de desenvolvimento de competências pela Universidade de Malmo, Suécia. É coach e practitioner em Programação Neurolinguística, certificada em Competências de Relacionamentos nas Escolas, facilitadora Family Lab e instrutora de Mindfulness certificada desde 2012. Estudou Generative Coaching, Family Communications e Positive Parenting. É também fundadora da Academia de Parentalidade Consciente. Trabalha também com empresas, organizações, escolas e infantários, facultando workshops, cursos e consultoria. É mãe de 3 filhos.
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