PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

Os cenários e as certezas

Anunciaram-se meios para o projecto de uma Escola Digital, mas não se conhecem em detalhe como isso será implementado, como serão disponibilizados os meios, com base em que critérios e, muito importante, quando estarão disponíveis.
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Enquanto vai terminando, de forma muito longa para o Secundário, um ano lectivo muito atípico, um outro já surge no horizonte próximo a exigir uma preparação antecipada como nenhum o exigiu nas últimas décadas. Esse trabalho, a nível central e local, é extremamente complexo porque depende de variáveis que não há forma de controlar com um grau de certeza favorável. Por isso, se criaram “cenários” para prevenir diferentes possibilidades, sendo que tais cenários não vão muito além do que seria óbvio esperar. Ou teremos ensino presencial, ou teremos um modelo misto ou teremos de voltar ao não presencial se os dados epidemiológicos assim o impuserem. Até aqui não há nada de especialmente novo, inesperado ou inovador.

O que é necessário definir com clareza é aquilo que será o tal “ensino misto” ou como se desenvolverá o ensino não-presencial se for necessário adoptá-lo a uma escala mais reduzida ou de novo a um nível global.

Neste caso, existem algumas certezas que confirmaram as percepções de quem desde cedo levantou reservas ao ensino remoto nas circunstâncias específicas do nosso sistema de ensino e da nossa sociedade. Há a certeza de que é um modelo que amplia desigualdades e penaliza os alunos mais vulneráveis, com maiores dificuldades económicas ou com problemáticas especificas de aprendizagem; há ainda a certeza de que é uma solução, em especial para os mais jovens, que não se equipara à do ensino presencial, mesmo que as novas tecnologias transmitam durante algum tempo a sensação de que é a “solução de futuro”; para além disso, já se percebeu também de forma clara que não existem meios tecnológicos para um recurso alargado ao ensino remoto que mantenha alguma equidade entre os alunos ou que garanta alguma fiabilidade no funcionamento.

Anunciaram-se meios para o projecto de uma Escola Digital, mas não se conhecem em detalhe como isso será implementado, como serão disponibilizados os meios, com base em que critérios e, muito importante, quando estarão disponíveis.

Já passámos há uma dúzia de anos por uma excitação tecnológica que foi intensa durante um par de anos e depois esmoreceu, porque um investimento deste tipo não se esgota na aquisição inicial de equipamentos e não se pode confundir com uma dezena ou duas de experiências-piloto para propagandear na comunicação social como se fosse algo multiplicável por dezenas de milhar de turmas dos vários ciclos de escolaridade.

Para além disso, mesmo um regime parcialmente misto de ensino, exige uma alteração nas metodologias de ensino, na forma de acompanhar o trabalho dos alunos e de avaliar até que ponto as aprendizagens vão sendo desenvolvidas. Porque, digam aquilo que disserem sobre os métodos “tradicionais”, nada substitui o acompanhamento ao vivo e de viva voz dos alunos por parte dos professores. Por muitas críticas que se façam, com maior ou menor legitimidade, às falhas deste ou aquele número de docentes, ainda não há computadores, plataformas ou programas que garantam uma melhor combinação de fiabilidade (observação directa do desempenho) e subjectividade (contextualização desse desempenho com base nas características específicas dos alunos).

Lamentavelmente, tenho observado nas últimas semanas uma maior preocupação em convencer a opinião pública de que as escolas serão espaços seguros (não percebendo que o mais complicado não é o que se passa intramuros), em definir a duração dos intervalos (atingindo níveis de absoluto ridículo) ou em elaborar ferramentas de “monitorização” do que é feito, ao invés de analisar o que se passou nos últimos meses, diagnosticando de forma rigorosa e atenta a cada realidade o que deve ser mudado ou repensado e não apenas encenado numa versão 2.0 do “Ensino Remoto de Emergência”.

De fora deixei de propósito aquilo que foi a chamada “nova” Telescola ou #EstudoEmCasa porque, com naturais excepções, se tornou mais um fenómeno de cultura pop do que propriamente um recurso pedagógico articulado com o trabalho feito pelos alunos e professores nas suas casas.

Resumindo, todos queremos que o próximo ano lectivo seja em regime presencial por razões sanitárias (a pandemia estaria controlada), por motivos pedagógicos (é a melhor solução para alunos e professores) ou mesmo por motivos psicossociais (foi evidente que uma parte da população não está preparada, nem tem condições, para ficar em casa a apoiar o estudo da sua prole), não esquecendo os económicos e financeiros (que acabam por se sobrepor aos restantes em muitas medidas).

Infelizmente, a maior certeza é que não sabemos se assim poderá ser.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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Comentários
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helena goulão
Concordo. Proibi-me de ler notícias sobre "Bitcho 19" e "Escola", mas, na leitura de início de dia, sempre vão aparecendo notícias que me levam a ligar à Terra. No meu Agrupamento, já para os finais do mês de Julho, chegou-nos um questionário Forms...Preenchi, mas destaquei, tal como destaco agora, um elemento: é preciso alterar os critérios de avaliação gerais e de áreas disciplinares. Essa foi uma das "lições", mas que pouco ouvi falar. Até poderá haver escolas que consigam os "3 Cenários de Western Spaghetti" com alguma eficácia...mas, no entanto, porém, se a base avaliativa não acompanhar os Cenários, haverá ainda mais desproporção&desigualdade nas aprendizagens.
Bom dia.
06-08-2020
 
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