PESO-PLUMA

Reforma antecipada

Não tinha qualquer respeito pelos mais velhos. Tratou-me logo por “tu”. Repetia vezes sem conta que este é um país velho onde só mandam os velhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

aulas

“Se olhares para a Assembleia da República, aquilo parece um lar de idosos. E os mais novos são moços de recados, em ânsias por serem tão velhos como os outros. Está sempre tudo atento à primeira fila do Parlamento, não é? Pois eu não tiro os olhos da última. Parece o lugar onde os elefantes vão morrer. Mas não é só na política. Se vires a nata dos mais ricos empresários portugueses, repara que, ou morreram ontem, ou estão todos com os pés para a cova. Os banqueiros, os Presidentes de Câmara, decisores, é tudo gente com setenta e cinco, oitenta anos, ou mais ainda. E já ouviste o que eles dizem, constantemente? Que é indispensável modernizar o país. “Modernizar”, repara. Achas normal que a lei diga que um funcionário público não tem idade para trabalhar depois dos setenta, a não ser que concorra para - segura-te - Presidente da República ou Deputado? Há dias em que me parece que a vida em Portugal começa na aposentação”. De nada valia recensear excepções ou dizer-lhe que não podemos desqualificar constitucionalmente os mais idosos. “E quando dizem que exercer cargos políticos não é o mesmo que exercer funções profissionais, é perder a noção de tudo” Era um moço cheio de ideias fortes, de guelra sanguínea. Tinha acabado o curso há uns anos e entrava agora no sistema de ensino. “Velho, esclerosado, onde os velhos mandam em tudo e os novos fingem não poder fazer nada contra o sistema. O sistema é um bacano. De barbas. Basta ver como se ensina. Isto cheira a mofo por todos os cantos. Já ninguém acredita nisto, mas como é velho, é para ficar. Isto já nem é velho, é imortal. E é preciso matar o velho. À Freud. Muda-se tudo, todos os anos para poder ficar tudo na mesma, como diz o outro, o de Lampedusa”.

Para início de conversa numa sala de professores, a coisa não estava mal de todo, não Senhor. Tinha começado com um simples: “Então o amigo é o novo professor de Português?” e, de repente, estávamos aqui, no meio de um motim. “A primeira coisa que vou fazer é candidatar-me ao cargo de Director na próxima eleição que haja. O que isto precisa é de uma reforma antecipada.” - prometeu.
Ainda tentei um ‘acho que é daqui a dois anos’, mas ele estava lançado: “Sabes onde querem jovens em barda e expulsam os velhos? Nos colégios privados. Pagam-lhes pouco e as notas upa, upa. Coincidências, não? Toma atenção: em 2007 havia 24% de professores com mais de 50 anos. Agora são metade. Com menos de 30 anos éramos 9%. Dez anos depois somos 0,8%. Isto é uma calamidade. Mandem os velhos para casa, para a rua ou para onde eles queiram ir. Livrem-nos deles e livrem-nos a eles de nós. E, não contentes com encatrafiar os velhos aqui, até caírem, estafados, roubam-lhes metade do ordenado se se atrevem a pedir pensão de velhice antes do tempo”. Apontou para uma colega e, prevendo-lhe a idade, atirou: “Então esta senhora não devia, mas é, estar em casa a cuidar dos netos ou numa piscina a pensar na morte da bezerra?”. Interpelada, a colega respondeu-lhe à letra: “Isso é que é falar. Faça lá a lista que eu voto em si”. Para me tentar livrar dele, menti-lhe: “Tenho de ir ali à Secretaria”. Ele levantou-se também e, sedutor, segredou-me: “Vou contigo, colega, a miúda nova da secretaria vale bem a visita”.

 

Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.