A PARTIR DA INTENÇÃO

É inevitável repensarmos a prática da parentalidade e da educação

Para conhecermos qual a ação "certa" a fazer numa determinada situação é necessário saber qual é a nossa intenção.
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Podemos falar de castigos, podemos falar de time-out, podemos falar de consequências naturais, lógicas ou conscientes… podemos falar de inúmeras ferramentas e estratégias de parentalidade, mas falarmos sem sabermos primeiramente quais são as nossas intenções não serve de nada. Há muitas estratégias que acabam com o “mau” comportamento, mas o que escondem e o que ignoram essas mesmas estratégias?

Um dos principais problemas na parentalidade é que olhamos para as crianças como se fossem de outra espécie ou de outra raça com menor valor que a nossa. E só porque são mais novos, porque são “nossos” e somos responsáveis por eles, nós assumimos que temos uma série de direitos - direitos esses que ninguém nos iria conceder em relação a outras pessoas adultas, a não ser que trabalhássemos numa prisão talvez... Praticamos o “adultismo” em muitos aspetos, discriminando as crianças com os mesmos argumentos que no passado já ouvimos (e ainda se ouve em algumas partes do mundo) sobre o tratamento e os direitos das mulheres ou os argumentos que se algumas pessoas utilizam para justificar diferenças entre raças.

Castigamos, isolamos, batemos em nome da "boa educação” e fazemos coisas que só podemos fazer legalmente porque a pessoa com quem estamos a interagir é uma criança. Mas no dia em que paramos e olhamos para o que realmente queremos para os nossos filhos, para nós e para a nossa relação…. novas perguntas e novas respostas começam a surgir. Começamos a revelar a incongruência total do nosso comportamento e das nossas justificações. É inevitável repensar a prática da parentalidade e da educação. Mas começamos por onde?

Para conhecermos qual a ação "certa" a fazer numa determinada situação é necessário saber qual é a nossa intenção. Que tipo de relação queremos ter com a criança, que preocupações temos com a sua saúde mental e emocional e quais são as capacidades, competências e qualidades que gostávamos que ela desenvolvesse. Quem é que nós precisamos de ser como educadores para a criança progredir?

Ao respondermos a estas perguntas torna-se bastante óbvio o que poderá ser uma estratégia certa e uma estratégia errada.

Vamos procurar explorar um exemplo prático:

O João tem 5 anos. Ele é um menino muito desafiador. Quer tudo à maneira dele. Está-se a transformar num “pequeno ditador”. Os pais já tentaram uma série de estratégias positivas, como explicar-lhe a importância do sono e avisá-lo sobre a hora de ir dormir quinze minutos antes para ele ir para a cama a horas. Já tentaram quadros de recompensas. A firmeza e assertividade são constantes. Os castigos e as palmadas também mas continua tudo na mesma. Até está a escalar. O pai acusa a mãe, pois por vezes ela tende a ser mais “permissiva” e o pai acredita que a consistência resolveria tudo. A mãe começou a duvidar.

Ao falar com os pais do João fica claro que as suas intenções englobam o desenvolvimento de uma autoestima saudável, a capacidade de gerirem as suas emoções de forma equilibrada e de serem empáticos. Querem ter uma relação com o João onde ele se sinta seguro e aceite.

Quando os pais do João comparam as suas intenções com as estratégias que têm utilizado surgem algumas revelações. Ao investigar as necessidades do João entendem que ele se deve sentir ignorado, insuficiente, desrespeitado… que os pais não o entendem e que não o aceitam. E os berros, o choro, as palavras feias, as tentativas de bater são as armas que ele tem para lutar pela sua integridade, pela sua dignidade, pelas suas necessidades e pelo direito às suas emoções. Torna-se claro que as estratégias escolhidas pelos pais não estão alinhadas com as intenções que têm. E esta tomada de consciência é absolutamente fundamental para o passo seguinte: a escolha da forma para se relacionarem com o seu filho.

Para mudar um comportamento numa criança, sem sabermos as nossas verdadeiras intenções, qualquer caminho serve. Até a palmada. Porque se a única coisa que queremos é acabar com uma atitude que nos desafia, sem pensarmos nas outras consequências, então esta é provavelmente a estratégia mais rápida. Mas se investigarmos o que realmente queremos como pais e se tivermos determinados e com coragem para nos colocarmos em causa vamos perceber que temos de deixar de exercer o “adultismo” e iniciar a prática da parentalidade consciente.

Mikaela ÖvénEstudou ciências comportamentais na Universidade de Lund, Suécia, e é licenciada em Recursos Humanos com a especialidade de desenvolvimento de competências pela Universidade de Malmo, Suécia. É coach e practitioner em Programação Neurolinguística, certificada em Competências de Relacionamentos nas Escolas, facilitadora Family Lab e instrutora de Mindfulness certificada desde 2012. Estudou Generative Coaching, Family Communications e Positive Parenting. É também fundadora da Academia de Parentalidade Consciente. Trabalha também com empresas, organizações, escolas e infantários, facultando workshops, cursos e consultoria. É mãe de 3 filhos.
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