PESO-PLUMA

Apresentar armas

Uma algazarra inunda o gabinete da direcção: "Não volto às aulas da velha. Eu não sou filho dela. Eu só faço os têpêcês semaptecer.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

aulas

"Não contem comigo para dar nem mais uma aula a esta turma!” – exclamou a professora, lançando-se, estrondosa, no Gabinete da Direcção. “Façam o que quiserem, mas com aqueles, escusam de contar comigo. Depois de tudo o que eu fiz por eles, tratam-me assim?...”

A directora levantou-se, interrompeu a apresentação que estava a ter com o novo professor de Matemática e procurou serenar a colega, notoriamente abalada.

“Eu não estou para isto, Madalena. Não me faltava mais nada senão aturar malcriadões. Ando eu a esforçar-me para depois ouvir isto? ‘Ó, velha?’ Eu digo-lhe quem é a “velha.”

“Velha? Quem te cham?…” – tentou a directora

“O Peninha, pois quem havia de ser? Aquele paspalhão que tem a mania que é homem, com barba semeada em dia de vento, respondeu-me “Está bem, está, ó velha” quando lhe disse que não entregou um único tpc este período. E a turma riu-se toda, ainda por cima. Eu não vou permitir uma coisa destas, Madalena. Nem pensar.”

“Vá. Sossega lá.”

“Escusas de tentar abafar a coisa. Não admito.” – garantiu a professora.

“Claro que não, mas agora vai ao bar beber um chá. Ó Dona Hortense, acompanhe aqui a senhora professora ao bufete”.

Regressou ao professor, procurando recuperar a conversa. “Peço desculpa, colega, mas é que…”

“Não tem de quê, então, essas coisas estão primeiro.” – prontificou-se ele.

“Então vem substituir a colega da licença de maternidade, não é? Dizia-me que é a primeira vez que dá aulas? Não me leve a mal mas, pela idade, não pareceria.”

“Na verdade, fui oficial do exército mas decidi não prosseguir a carreira militar e apostar no ensino que é uma paixão antiga.”

“Exército? Olhe, um batalhão de sargentos é que fazia aqui falta hoje.”, brincou.

O professor ia explicar que “sargento” não é o mesmo que “oficial”, mas nova algazarra inunda outra vez o Gabinete da Direcção. Chegara o “Peninha”, armado com os seus 14 anos até aos dentes, e com a respectiva funcionária adjacente:

“Directora, não volto às aulas da velha. Não pense nisso. Eu não sou filho dela. Eu só faço os têpêcês 'semaptecer'. Ela não tem nada com isso.” – gritava o jovem, desvairado.

A directora aproxima-se e contém-se: “Peninha. Tu chamaste ‘Velha’ à professora?”

“Chamei e é o que ela é. É velha e é maluca.” Arreliadíssima com o novo desaforo e ainda mais arreliada com o metro e setenta e cinco do rapaz, a directora ordena-lhe que vá para a sala 34 – que faz naquela escola as vezes de purgatório para “maus alunos”.

“Não vou, não senhora”, abespinha-se o Peninha, que tenta fugir. A funcionária agarra-o, o rapaz reage e levanta-lhe um braço, ameaçador.

Rápida, a directora metralha um berro, virando-se para o professor substituto:

“Ó meu sargento, prenda já este rapaz e leve-o para o quartel! Meta-o na cela, à minha responsabilidade. Fica lá até Quinta-feira.”

Em voz alta, o ex-soldado responde, com intuição teatral, batendo os calcanhares: “Sim, meu comandante.” E leva o rapaz – estupefacto - por um braço, dali para fora.

Depois de uns momentos de silêncio, a directora sorri e decreta à funcionária: “Informe os oitavos anos que já têm Matemática a partir da semana que vem."

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.