PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

O ano de todo o sucesso

O sucesso vai aumentar, não porque os alunos se adaptaram maravilhosamente ao ambiente digital e os professores mudaram radicalmente o seu “paradigma” quanto à avaliação, mas porque em tempos de crise se deve fazer o possível por não agravar as situações de maior fragilidade.
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Nas reuniões de avaliação de final de Junho, em especial no Ensino Básico, irão registar-se os maiores níveis de sucesso das últimas décadas da Educação em Portugal. As razões são óbvias: atendendo a todo o contexto a larga maioria dos docentes concorda que, mesmo alguns alunos que em circunstâncias normais não estariam em condições de transitar, não irão ficar retidos. A menos que tivessem, já em Março, excedido largamente o limite legal de faltas injustificadas ou que não tivessem cumprido as tarefas mínimas para serem avaliados.

Não tinham sido necessário tantos avisos, nem sempre coerentes, dos governantes, do primeiro-ministro (com a sua insistência numa “avaliação a sério” no 3.º período) ao secretário de Estado com as suas prédicas regulares sobre as novas formas de avaliação e a necessidade de adaptar ferramentas e metodologias e toda aquela ladainha que se ouve há quase 30 anos, mas parece que é cascata sem fim.

Os professores são dotados, no seu conjunto, com as naturais pouco honrosas fugas à regra, sensatos e experientes o suficiente para saberem que a situação é por demais excepcional para que os alunos vejam o seu percurso escolar prejudicado na sequência das alterações vividas nos últimos meses. Não se trata apenas das dificuldades de acesso ao mundo digital para acompanharem o ensino à distância que foi colocado em prática de forma quase imediata; nem sequer das diferentes condições que cada família ou agregado familiar teve para apoiar as tarefas a realizar pelos alunos. As próprias escolas reagiram de forma diversa, em ritmos diferentes, ao nível da “oferta”.

E no final do 2.º período, a maioria dos docentes já estava consciente de tudo isso e, de forma autónoma e responsável, sem necessidade de orientações ou recomendações de maior ou menor proximidade, dos poderes locais à tutela central, existiu um acordo implícito para que as classificações então atribuídas já contemplassem, na maioria dos casos, o que seria melhor para os alunos. Ficando aberta, claro, a possibilidade de alguns ainda conseguirem alguma melhoria. O que, pela minha experiência pessoal e pelo que me vai sendo transmitido por colegas, até aconteceu em alguns casos individuais, mesmo se globalmente este 3.º período está longe de corresponder ao que seria desejável ao nível da qualidade e quantidade do retorno das tarefas solicitadas. E volto a sublinhar que esta é uma análise mais centrada no Ensino Básico, que não teve regresso a aulas presenciais.

O sucesso vai aumentar, não porque os alunos se adaptaram maravilhosamente ao ambiente digital e os professores mudaram radicalmente o seu “paradigma” quanto à avaliação, mas porque em tempos de crise se deve fazer o possível por não agravar as situações de maior fragilidade. É uma espécie de parênteses, aberto para que no futuro todos possam retomar alguma “normalidade” e então se fazer o balanço de tudo isto.

O sucesso não vai aumentar por causa do ensino remoto (justamente designado como “de emergência”), mas apesar dele.

Aposto, no entanto, que haverá quem tenha uma enorme vontade de ceder à tentação demagógica de fazer uma associação causal falaciosa, querendo dar a entender que, “afinal”, seriam possíveis “novas práticas” e que esta crise pandémica foi o “empurrão”, a “oportunidade” para que se verificassem “avanços”, “progressos” no modelo de avaliação dos alunos. Quem queira fazer acreditar que isto pode e deve ser o “futuro da Educação”. Mas não é verdade. Como bem referiu o presidente do Conselho de Escolas, o que se passou foi um “remedeio” destinado a resolver, no mais curto espaço de tempo, uma situação problemática que, como muitas outras pessoas têm procurado destacar, deixou muita gente excluída por falta de meios. O que só não se traduzirá num dramático retrocesso do sucesso, por causa daquela espécie de acordo implícito e quase imediato dos professores, de tratarem estes meses como uma espécie de “período zero”.

É fundamental que os decisores e as suas equipas de conselheiros resistam à tentação de iludir a realidade, dando a entender que o que se passou não foi algo excepcional e foi o início de uma qualquer “nova normalidade”. Há que resistir a uma deriva que neste caso será “populista”, na verdadeira acepção do termo, mesmo quando isso surja como politicamente quase irresistível.

É indispensável honestidade intelectual e seriedade de carácter para não transformar este previsível “sucesso” num trunfo político ou como “prova” seja do que for em termos de ideologia na área da Educação. Mas estão em causa qualidades que andam há muito arredias da nossa vida política.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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