PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 75 – Humildade

Esta nova fase deveria revelar que se aprendeu qualquer coisa, que se entendeu o quão frágil é a Humanidade e as suas “conquistas” quando um pequeno vírus fica descontrolado. Mas não é isso que me parece. A humildade é algo que nos ficaria tão bem ou melhor do que qualquer máscara usada como acessório de moda.
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Este será o último verbete desta espécie de diário que aqui mantive durante cerca de dois meses e meio. Porque hoje termina o dever cívico do confinamento e entra-se na terceira fase de desconfinamento. Abrem-se ginásios, salas de espectáculo, centros comerciais, lojas do cidadão e estabelecimentos do pré-escolar (dos 3 aos 5 anos). Os restaurantes deixam de ter limites máximos de clientes. Os cafés já não os tinham em tantos casos. Mas bastava observar o quotidiano das ruas nos últimos dias para se perceber que o ambiente já tinha mudado por completo e que uma quantidade assinalável de pessoas já sentia que tinha ultrapassado o pior.

Nas televisões, surgem as esperadas reportagens sobre as normas de segurança desde os jardins de infância aos provadores de roupas. A economia pode renascer, por fim, para gáudio de todos aqueles que receavam que ainda ficássemos um país pouco desenvolvido. Já se anunciam lotações esgotadas em unidades turísticas para um Verão que se anuncia como melhor do que se poderia esperar. Parece que a Nação está salva e a ameaça foi derrotada.

Mas o que me está a provocar mais urticária do que seria confortável é o ar de algumas pessoas que surgem a falar como se tivessem combatido, olhos nos olhos, o vírus e vencido sem margem para dúvidas. Quando a maioria se limitou a fazer quase nada, que foi o que foi pedido a essa mesma maioria: que ficassem em casa e fizessem o mínimo. Mas parece que há uma mitologização em decurso acerca de uma espécie de heroísmo, nascida de não se ter feito quase nada durante dois meses; “vencemos o vírus” ou “conseguimos ganhar esta guerra” parecem ser pensamentos comuns. O que revela uma enorme falta de humildade.

Seria bom que se mantivesse um nível razoável de humildade porque nem o vírus e a doença foram mais do que contidos na sua propagação, nem a maioria fez grande coisa de notável. Isso fizeram os profissionais de saúde que tiveram de lidar directamente com a ameaça pandémica e algumas outras classes profissionais que tiveram de arriscar a sua saúde para manter funções económicas e sociais em funcionamento, sem poderem ficar em teletrabalho.

Esta nova fase deveria revelar que se aprendeu qualquer coisa, que se entendeu o quão frágil é a Humanidade e as suas “conquistas” quando um pequeno vírus fica descontrolado. Mas não é isso que me parece.

A humildade é algo que nos ficaria tão bem ou melhor do que qualquer máscara usada como acessório de moda.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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