PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 74 – Saturação

Depois das primeiras semanas de descoberta (para quem já não as usava) de algumas novas ferramentas de trabalho, começou a instalar-se um efeito de repetição em que até o espaço da sala de aula começa a ser recordado com saudade pelos alunos que antes diziam detestá-la.
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Na última conversa síncrona com os alunos da minha direcção de turma, foi notório o cansaço de todos com este modelo de E@D, não um cansaço físico ou intelectual com o excesso de tarefas, mas um cansaço nascido do que se tornou uma rotina que perdeu novidade, interesse e capacidade de os cativar. A pergunta feita mais vezes foi “quando é que são as matrículas?” ou “como são as matrículas para o ano?”, porque a cabeça da maioria já deixou este ano lectivo para trás.

Não é caso único, pois cá em casa existem três canais de informação em primeira mão sobre o que se passa nas escolas, para além de todas as conversas que se vão mantendo pelos canais digitais. E começam a acumular-se as evidências de que este “modelo”, que a alguns entusiasma, aos alunos nem por isso. E não há rap telescolar para os petizes ou gamificação das aprendizagens para os mais velhos que salve a sensação geral de desgaste. Sim, o ensino de base quase exclusivamente tecnológica e digital pode tornar-se tão ou mais aborrecido do que o presencial de recorte “tradicional” e talvez esta seja a conclusão que muita gente não terá coragem de assumir.

Depois das primeiras semanas de descoberta (para quem já não as usava) de algumas novas ferramentas de trabalho, começou a instalar-se um efeito de repetição em que até o espaço da sala de aula começa a ser recordado com saudade pelos alunos que antes diziam detestá-la. Sim, o digital é menos interactivo do que o humano e essa é uma outra conclusão que poderiam fazer por não encobrir. Não há plataforma que chegue aos calcanhares de um professor mediano. E nem @ mais criativ@ d@s docentes em meios digitais consegue impedir que se instale uma evidente saturação com uma solução que poderá ser uma “alternativa” em tempos de crise, mas dificilmente o “novo paradigma” que melhorará o gosto dos alunos pela escola ou o seu desempenho.

É verdade que funciona bem como “tempero”, mas não satisfaz como prato principal.

Temos ainda mais quatro semanas para cumprir, em especial no Ensino Básico, num tempo cada vez mais penoso, pois todos sabem que, salvo excepções, para o ano teremos – se for possível o regresso em segurança ao modelo presencial – de fazer novamente boa parte deste caminho. O prolongamento do ano lectivo foi uma decisão que se revelou mais errada a cada nova semana que foi passando. Agora já só podemos mitigar a situação e fazer os possíveis por transmitir a esperança, que nem sempre temos, aos alunos de que para o ano será diferente. “Mas será melhor?” perguntam-me os mais perspicazes. E eu que nem conheço o emoji certo para o encolher de ombros com ar de quem não faz a mínima ideia, não tenho resposta.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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