PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 73 – Os ecrãs são inodoros

Li há uns dias alguém a dizer que esta crise tinha sido um “abridor de olhos” para o papel essencial dos professores em aulas presenciais. Penso que a expressão se aplica apenas a quem tinha os olhos fechados para isso e já estava a navegar virtualmente há uns tempos.
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Há o “cheiro a balneário” e o “cheiro a sala de aula”. Que, é bom admiti-lo, num caso nunca me foi agradável e no outro depende muito da época do ano. Por estes dias, movidos a 32-35 graus, em salas não climatizadas digamos que o ambiente quase se corta à faca.

Mas a ideia não é ser literal. É mais lateral. Nem é ser politicamente correcto, muito pelo contrário. Porque a dada altura, quem entranhou alguma coisa do “ser professor”, em especial pelo lado das relações humanas, fica com falta do tal “cheiro a sala de aula” e não se trata apenas do sonasol verde pela manhã ou do pó de giz pelos ares a meio da tarde, a menos que sejamos dos que só recorrem a quadros interactivos e nunca foram à pressa desenhar uma Península Ibérica em forma de perfil narigudo para demonstrar qualquer coisa em H.G.P.

Quando leio ou ouço alguém a multiplicar êxtases e arrebatamentos com sessões de Zoom ou Teams ou com classrooms virtuais, salta-me logo aquele preconceito que me faz pensar que estou perante alguém que tem uma noção muito diferente da minha do que deve ser a dimensão humana da Educação, com o mínimo de mediações. Fico a pensar que é gente que considera um consolado jogo de FIFA 2020 mais interessante do que o futebol ao vivo, ele mesmo, apesar dos nossos dirigentes, comentadores e árbitros.

Os debates sobre qual a melhor plataforma para acrescentar mais apps, plugins ou add-ons deixam-me enregelado, mesmo que tenha algum interesse no conhecimento em si. A emoção enorme na disputa entre as nano-vantagens desta sobre aquela extensão para o Chrome ou Firefox é algo que me entusiasma ao nível da propagação de miasmas no ectoplasma.

Sinto que é gente que, em sala de aula, prefere ter ecrãs diante de si do que pessoas reais. Que, podendo, baterá em retirada para o seu gabinete com ar condicionado e cadeira ergonómica do que estar a li, de pé, a interagir de forma directa com seres humanos, com os seus tons de voz, esgares e tanta outra coisa que frequentemente nem nos agrada.

Li há uns dias alguém a dizer que esta crise tinha sido um “abridor de olhos” para o papel essencial dos professores em aulas presenciais. Penso que a expressão se aplica apenas a quem tinha os olhos fechados para isso e já estava a navegar virtualmente há uns tempos.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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