PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 72 – Vamos falar disto mesmo a sério? - 5

Uma Educação Digital para ser inclusiva deve contar com todos e assegurar a todos os meios e ferramentas específicas para todos acompanharem a maior parte das tarefas solicitadas.
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Qualquer modelo de ensino, seja para que século for, se pretender apresentar-se como universal e inclusivo deve ter em conta, desde a sua concepção, as condições indispensáveis para concretizar tal desígnio. Por maioria de razão quando se pretende que esse modelo ancore nas tecnologias de informação e comunicação mais avançadas.

Não estão apenas em causa – e são de monta – os condicionalismos económicos, mas igualmente os culturais e os que se relacionam com os eventuais handicaps dos alunos, desde dificuldades de natureza cognitiva com múltiplas potenciais origens a défices sensoriais, sendo mais óbvios os da visão e audição.

Para esses alunos, mais do que buscar as plataformas mais intuitivas ou com mais funcionalidades para trabalhar com a generalidade dos alunos, há que mobilizar as “tecnologias assistivas” (assistive technologies, na designação original) mais adequadas à inclusão de alunos com situações que vão da dislexia à cegueira, passando por muitas outras situações que parece mal agora designar como “necessidades educativas especiais”, sendo mais politicamente correcto optar por necessidades específicas de aprendizagem.

Entre nós, este é um tema que já deu origem a algumas teses de mestrado, mas tem tido escasso destaque fora de ambientes muito específicos de debate em torno de tecnologias digitais para alunos com este tipo de circunstância. E muito pouco ou nada ouvi falar a este respeito nestes últimos meses de E@D, “Telescola” ou e-learning de emergência. O silêncio corresponde, em grande medida, a um vazio completo de orientações oficiais a este respeito. O que é estranho em quem tanto tem falado nos últimos anos sobre inclusão.

As “tecnologias assistivas” destinam-se a ajudar alunos com dificuldades em usar de forma “normal” certos recursos digitais, permitindo-lhes aceder a materiais online adaptados às suas situações. São tecnologias que nem sempre requerem recursos high-tech, mas que obrigam a aceder a equipamentos como teclados adaptados, scanners ou dispositivos que ajudem alunos com baixa audição ou visão, assim como programas que permitam transformar texto escrito em voz, a partir do que é visível num ecrã. Alguns pacotes mais conhecidos de software já incluem algumas funcionalidades desse tipo (da ampliação de imagens e letras a ferramentas áudio), mas a própria concepção dos materiais destinados à aprendizagem devem ser concebidos a pensar nos diferentes públicos a que se dirigem, prevendo, por exemplo, a descrição alternativa das imagens usadas ou o cuidado em assinalar a sequência certa da leitura dos segmentos de texto numa apresentação, para que a activação da sua leitura automática tenha alguma utilidade. O uso da cor deve ser feito com a devida atenção, evitando, por exemplo, que os códigos de cor sejam os únicos elementos explicativos de cada informação e até o alinhamento do texto deve ser feito de modo a que a distância entre letras e palavras seja uniforme (sendo preferível o alinhamento à esquerda ao texto justificado, como eu tantas vezes formato por hábito). Para alunos invisuais é ainda essencial elaborar “diagramas tácteis” quando estão em causa representações gráficas complexas, como acontece com alguns conteúdos da Matemática ou com a notação científica em disciplinas como a Física ou a Química.

Uma Educação Digital para ser inclusiva deve contar com todos e assegurar a todos os meios e ferramentas específicas para todos acompanharem a maior parte das tarefas solicitadas. E não basta distribuir tablets ou computadores. Isso é apenas o que fica à superfície. E até agora temos andado apenas a espreitar a espuma das ondas.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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