PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 70 – Vamos falar disto mesmo a sério? -3

Abrem-se as vias para uma aprendizagem personalizada, mais do que apenas para um ensino diferenciado. E só então se entra no caminho para uma “Redefinição” do que podemos entender como Educação de Massas num contexto digital. Essa é a fase de que ainda estamos muito longe e merece uma atenção especial.
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Um recente debate televisivo anunciou como tema a “Revolução Digital na Educação” e desenvolveu-se com recurso a este chavão “impactante” (como agora se tornou usual designar tudo e mais qualquer coisa), mas com muitos equívocos de permeio.

Nos últimos meses, tendeu-se a apresentar como se fosse uma “revolução” o processo de substituição das aulas presenciais nas escolas por variantes que procuraram replicá-las da forma mais fiel possível, só que à distância. O maior exemplo disso é o das aulas da “Telescola”. No fundo é uma “aula” dirigida ao mesmo tempo a todos os alunos, com o problema de não ter interactividade com o seu “público”. O mesmo se passa com as sessões “síncronas” em que tantas escolas parecem ter colocado ênfase, obrigando alunos e professores a estar ao mesmo tempo a realizar uma determinada actividade. No fundo, tirando o meio pelo qual se concretiza a “aula”, pouco acontece de verdadeiramente novo e há mesmo importantes perdas em relação às aulas presenciais.

Este é o grau mais básico de utilização das tecnologias de informação e comunicação na Educação. São ferramentas que se limitam a substituir outras, não produzindo qualquer tipo de verdadeira inovação. É o que se tem passado na maior parte dos casos, arrisco-me a escrever, ao longo dos últimos anos com o recurso a vídeos ou apresentações de diversos tipos para preencher partes das aulas, em vez de estar o professor a falar. Uma videoconferência também se limita a substituir uma reunião/aula presencial. O projector, o quadro interactivo ou os tablets, usados desta forma, não trazem qualquer revolução.

O passo seguinte, é o de procurar melhorar o ensino dito “tradicional”, acrescentando-lhe mais recursos, com maior rapidez e variedade. É a fase da “Amplificação” (ou “Aumento”), na qual, por exemplo, o acesso à internet permite que, numa aula, sejam pesquisados mais materiais pelo professor para apresentar aos alunos sobre uma data matéria. Ou pelos alunos, para realizarem os seus trabalhos. Acrescentam-se materiais aos disponibilizados pelos manuais. Acelera-se o processo de consulta tradicional de livros numa biblioteca. Há quem confunda esta fase – ou limite a ela – aquilo que se conhece como “trabalho de projecto” ou uma fase inicial da “aprendizagem baseada em problemas” (problem-based learning).

Melhoram-se e aceleram-se procedimentos, mas ainda não há uma verdadeira transformação na forma de organizar o tempo escolar, do ensino e da aprendizagem. A base do modelo continua a ser o da sincronia e relativa homogeneidade de processos.

Isso só acontece na fase da “modificação”, quando as tecnologias são incorporadas no sentido de alterar a concepção do que é uma “aula”, seja ao nível das ferramentas, seja no modo de pensar o tempo da aprendizagem. E a “sincronia” deixa de ser uma condição. Pelo contrário, a assincronia (apesar de algumas desvantagens em alguns planos) torna-se mais adequada à personalização do ensino e à progressão das aprendizagens controlada pelos próprios alunos. Implica um forte investimento na produção de materiais e de detecção de recursos do próprio professor, mas aposta de igual modo na produção de materiais pelos alunos e numa avaliação interactiva, mas não necessariamente síncrona, entre os pares. Permite refazer tarefas com base no retorno obtido nas interacções em fóruns de debate e em “comunidades de prática”. Abrem-se as vias para uma aprendizagem personalizada, mais do que apenas para um ensino diferenciado. E só então se entra no caminho para uma “Redefinição” do que podemos entender como Educação de Massas num contexto digital. Essa é a fase de que ainda estamos muito longe e merece uma atenção especial.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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