PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 69 – Vamos falar disto mesmo a sério? - 2

No presente, as teses construtivistas regressaram em força e tentam mostrar-se compatíveis com a era digital, quase como se a tivessem antecipado, mas a verdade é que tentam sem sucesso colocar roupas velhas a algo novo. Tentam explicar os fenómenos do século XXI, com teorias do século XX que, na origem, desconfiavam muito da desumanização tecnológica.
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As transformações nos sistemas educativos e na Educação decorrem de forma lenta, mesmo quando existe abundante legislação no sentido da mudança. São instituições que evoluem no tempo longo, mesmo quando se alteram algumas práticas e indicadores a curto prazo sob a pressão de agendas políticas ou circunstâncias especiais. O exemplo português não é excepção e a maior anomalia é existir quem pense que num ou dois mandatos se pode mudar a face da Educação de forma sustentada para além de algumas facetas estatísticas.

Por outro lado, é muito raro que essas mudanças sejam feitas globalmente de acordo com modelos pré-definidos, embora a sua orientação possa seguir uma teoria dominante. As últimas décadas do século XX foram marcadas pela tensão entre os modelos cognitivista e construtivista no campo das teorias do ensino e aprendizagem, mas no plano curricular ou de organização do tempo e do próprio espaço escolar isso teve um impacto mais diluído. Os anos 90 do século XX assistiram a um avanço das teses construtivistas a partir dos centros de decisão política, associado a reformas do currículo que culminaram nas chamadas áreas curriculares não disciplinares e a uma centralidade na formação de professores nas teses relacionadas com as “pedagogias activas”, mas a verdade é que o seu impacto mais forte se fez no plano da avaliação e da oscilação dos critérios para a transição dos alunos, assim como no avanço de práticas pedagógicas relacionadas com o que agora designamos como inclusão.

Entretanto, o século XXI começou a ser projectado à luz destas teses nascidas de um contexto de expansão da escola de massas em Portugal (e nos países em vias de desenvolvimento), mas a aceleração das inovações tecnológicas e o alastramento dos meios digitais, nos mais diversos suportes e funcionalidades, criaram uma nova realidade. Mais plural. Com mais possibilidades. Mas mais riscos de fragmentação e aumento das desigualdades de acesso, por razões de ordem económica.

Em termos teóricos, estes avanços tecnológicos não criaram um modelo de ensino novo, para além da promoção das STEM (acrónimo para Science, Technology, Engineering and Mathematics) como centrais num currículo que se pretendeu mais ajustado a essa nova realidade. Isso traduziu-se numa subalternização das Artes e Humanidades e num empobrecimento curricular. A “STEM Education” é uma Educação truncada, amputada. As tecnologias, em vez de servirem a Educação, passaram a querer dominá-la transformando-se numa espécie de “ideologia”, embora mantendo entre nós, mas não só, uma parceria algo contranatura com o establishment construtivista, salvo um pequeno período de dissensão durante os “anos da troika”.

No presente, as teses construtivistas regressaram em força e tentam mostrar-se compatíveis com a era digital, quase como se a tivessem antecipado, mas a verdade é que tentam sem sucesso colocar roupas velhas a algo novo. Tentam explicar os fenómenos do século XXI, com teorias do século XX que, na origem, desconfiavam muito da desumanização tecnológica. E não conseguem resolver o paradoxo de quererem mudar a Educação, mas acabarem por usar os novos meios digitais como se fossem apenas algo equivalente ao aparecimento do stencil, do projector de slides ou da fotocopiadora, quando está em causa uma transformação muito maior.

O século XXI já está entre nós há demasiado tempo para continuarmos a ignorar que são necessárias novas formas de pensar e não velhas formas apresentadas como novas. O que queremos e podemos fazer não pode ficar preso a esta ou aquela tese do século passado, porque isso nos limita. Há que definir até onde queremos ou podemos avançar. O modelo SAMR (Substituição, Amplificação, Mudança ou Redefinição) pode dar-nos uma base de debate. Será assunto para amanhã.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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