PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 66 – A história repete-se?

Boa parte de quem não regressa às aulas presenciais, não o faz só por questões de segurança, mas porque irá manter apoio em casa, com ou sem ensino remoto da rede pública. Basta pensar em todos aqueles alunos que nas aulas regulares se mostravam displicentes e não negavam que o seu maior investimento era no par de horas de explicações privadas.
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Terminou a primeira semana de aulas presenciais do Secundário e, ao contrário do que se passou nos primeiros dias, não parecem existir números públicos sobre a sua frequência. Não é por falta da generalidade das escolas, certamente por solicitação ou ordem da tutela, pedirem aos professores para lhes fornecerem dados sobre as presenças e ausências.

A minha sensação, a partir de uma amostra muito limitada que não se pode comparar aos dados já recolhidos pelos serviços do Ministério da Educação, é que ao longo da semana se passou o inverso de algumas previsões feitas para consumo mediático. Em vez de uma subida das presenças com o passar do tempo – alegadamente por se perceber que as condições de segurança estavam asseguradas – parece-me que se deu uma quebra da afluência dos alunos. As razões para isso? É difícil determinar, mas pode encontrar-se um paralelo nas aulas da chamada “Telescola” que arrancaram em força e foram perdendo ímpeto com o tempo, mesmo com alguma campanha em seu redor, cada vez que alguém por lá fez uma coisa ligeiramente diferente da fórmula comum.

Claro que no Secundário está mais em jogo, a começar pelos exames nacionais para acesso à Universidade. O que poderia motivar os alunos a regressar em maior número. Mas, para quem não anda distraído, perceberá que quem acredita no maior empenho dos alunos com explicações pagas as continuou a manter durante o período de confinamento, mesmo que fosse em regime remoto. Porque tudo o que se tem afirmado acerca de desigualdades é verdade e em situações de crise tudo se agrava, por muito que algumas personalidades façam malabarismos retóricos para o esconder.

Boa parte de quem não regressa às aulas presenciais, não o faz só por questões de segurança, mas porque irá manter apoio em casa, com ou sem ensino remoto da rede pública. Basta pensar em todos aqueles alunos que nas aulas regulares se mostravam displicentes e não negavam que o seu maior investimento era no par de horas de explicações privadas.

O actual contexto não mudou isso e, pior, agravou-o com o amadorismo com que vão sendo apresentadas, aos soluços, as medidas da retoma das aulas. Regressa quem ainda confia no sistema público e quem dele depende em exclusivo. Os outros, que já antes andavam por lá com um pé dentro e outro fora, preferirão não arriscar. Mas o pior mesmo é que algumas regras disparatadas (como obrigar quem vai fazer um exame a assistir a aulas de quatro disciplinas) ainda vão empurrar mais encarregados de educação e alunos para os braços de uma rede informal de ensino privado que há quem diga que critica, mas depois acabe por a promover com as suas decisões concretas.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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