PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 65 – S@D (Sucesso a Distância)

Trata-se de garantir o “sucesso”, não com qualquer reformulação dos métodos de avaliação (como outro governante deu a entender em recomendações recentes, tiradas directamente de um manual de avaliação formativa de há 30 anos), mas sim de fazer uma série de avisos aos professores para a necessidade de atenderem às circunstâncias anómalas que se vivem.
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O ministro da Educação deu uma entrevista em que um dos temas centrais, ou que atraiu mais a atenção mediática, foi o da avaliação dos alunos. E, de novo, percebe-se como quem leva 90% do tempo a desvalorizar a avaliação como um aspecto secundário do processo educativo, afinal recentra por completo o seu discurso e a sua acção quando existe uma verdadeira possibilidade de alterar qualquer coisa e imaginar algo que vá para além de criar uma teia burocrática para garantir o sucesso estatístico.

E é disso que se trata.

De garantir o “sucesso”, não com qualquer reformulação dos métodos de avaliação (como outro governante deu a entender em recomendações recentes, tiradas directamente de um manual de avaliação formativa de há 30 anos), mas sim de fazer uma série de avisos aos professores para a necessidade de atenderem às circunstâncias anómalas que se vivem.

Não havia necessidade. Nós sabemos.

Por outro lado, chegando-se ao Secundário, os avisos já são de outro sentido. Sucesso, sim, mas nada de excessiva qualidade do mesmo porque está em causa a equidade do acesso ao Ensino Superior. E ameaça-se com inspecções, depois de anos em que o assunto foi falado, os problemas identificados e as estratégias por demais conhecidas, sem que nada de verdadeiramente eficaz se tenha feito.

Mais valia que tivessem tido uma acção reguladora eficaz, em vez de sucessivos avisos, sem especiais consequências.

Em matéria de avaliação, há duas quase certezas que tenho em relação a este ano.

Quanto ao Básico irão verificar-se níveis de sucesso nunca vistos, que espero não venham a ser aproveitados de forma demagógica para dar a entender que existe um nexo de causalidade entre o telensino, uma mudança radical na forma de avaliar e o aumento do sucesso. A tentação vai ser muito forte, para oportunismos políticos. Mas ceder-lhe dirá muito sobre o carácter de quem ignorar que o que está a acontecer é apenas uma situação excepcional e que não existe nenhum novo modelo de avaliação, apenas a preocupação de não penalizar quem ficou subitamente numa situação de maior desigualdade do que no ensino presencial.

No caso do Secundário, o problema é mais complexo e apenas se tem como certo que a generalidade dos professores tenta, em circunstâncias normais, defender os seus alunos mais fracos (ou mais fortes, curiosamente) dos efeitos inesperados de um desempenho menos feliz nos exames. Este ano, isso tornou-se mais problemático e inesperado, porque ainda não se percebeu como a sucessão entre ensino presencial, remoto e de novo presencial em regime “estranho” vai afectar professores e alunos. A quase certeza é que, como no Básico se baterão recordes de sucesso, no Secundário irão bater-se recordes de recursos.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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