PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 64 – Silêncios estranhos

Que estranho o silêncio de três grupos de pessoas que ao longo dos anos bradaram contra este mecanismo de avaliação que consideram injusto, selectivo, serializador, promotor de uma pouco saudável competição e mais uns males tremendos.
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As situações complicadas de resolver são aquelas em que se testam melhor as verdadeiras convicções das pessoas, em especial aquelas que se apresentam de forma repetida como prioritárias, inadiáveis e mesmo com uma certa carga moral. Em matéria de Educação, uma das principais discussões centra-se há muito tempo no papel dos “exames” (mesmo quando o termo é usado de forma inadequada) na avaliação e progressão dos alunos.

Em toda essa discussão, de há muito, a minha posição é de que os “exames”, na sua forma de prova final ou não, com um peso ponderado na avaliação final do aluno (em regra, são 30%) é uma ferramenta que, entre nós, no nosso contexto educativo, ainda é uma ferramenta útil de regulação. Estou aberto a discutir a ponderação (poderá descer aos 20%, nunca subir dos 35%), mas o seu papel como regulador das avaliações internas na transição de ciclos e acesso à Universidade ainda me parece indispensável.

Esta minha posição está em total contraciclo com a de muitas pessoas com influência e poder de decisão nestas matérias que desde o final de 2015 avançaram com a eliminação das provas finais do 1.º e 2.º ciclo e não se cansam de falar em repensar o acesso ao Ensino Superior. Por isso, estranho muito o silêncio de três grupos de políticos, especialistas académicos e opinadores, que se intersectam com frequência, acerca do que foi decidido o mês passado acerca do acesso ao Ensino Superior.

E eu repito que estranho o silêncio de três grupos de pessoas que ao longo dos anos bradaram contra este mecanismo de avaliação que consideram injusto, selectivo, serializador, promotor de uma pouco saudável competição e mais uns males tremendos.

O primeiro grupo é o da grande coligação que em finais de 2015 acabou com o “exame da 4.ª classe” (e por tabela a prova final do 6.º ano), assim designado para mistificar a opinião pública. É verdade que depois de criticaram o carácter quase “fascista” da prova aplicada ao 4.º ano, aceitaram a criação de outras para o 2.º ano, o que nos deu logo um sinal de que nem tudo era o que se dizia.

O segundo grupo é o de quem anda há anos a dizer que devemos “repensar” ou “reconfigurar” o acesso ao Ensino Superior, deslocando para Universidades e Politécnicos as provas de acesso. Mas que, tendo agora a oportunidade de avançar nesse sentido (com o qual discordo sem uma articulação efectiva com o Ensino Secundário), preferiu assobiar para o lado e nem aflorar a possibilidade num momento em que nem sequer há ensino presencial no Superior.

O terceiro grupo é o dos entusiastas dos meios de avaliação à distância e por meios informáticos que nos prometeram que a breve prazo se fariam provas e exames apenas com suporte digital. Como os anteriores, poderiam ter aproveitado este contexto para, pelo menos, apresentarem qualquer coisa de novo, até porque o Ministério da Educação tem gastado milhões de euros no desenvolvimento de plataformas digitais para tudo e mais alguma coisa, menos para apoiar devidamente as aprendizagens e desempenho dos alunos.

Os alunos do Secundário vão, pela primeira vez desde que me lembro, todos fazer exames como se fossem “externos “. Pela primeira vez desde que me lembro, os “exames” vão ser mesmo exames. Eu que defendo a sua existência, discordo desta decisão, mas estou rodeado de um silêncio quase total, pois apenas pequenos grupos de professores se têm mobilizado em dispersa oposição. Nem sequer os encarregados de educação parecem ter percebido o que está em causa. Porque o silêncio é imenso. O silêncio dos hipócritas quando confrontados com a possibilidade de serem coerentes em tempo útil.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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