PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 59 – Mês e meio a treinar (para) o quê?

O “treino” do próximo ano lectivo é necessário, mas não se é para replicar o que está a ser feito com base no voluntarismo e improviso. Ou se é para servir de base a um modelo de Ensino Básico ainda mais truncado, desigual e de “sucesso” por decreto. Os alunos merecem muito mais do que isso.
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A semana terminou com declarações do primeiro-ministro sobre o 3.º período que me deixam espantado. Não quanto ao conteúdo em si, mas quanto à sua relação com o que efectivamente se está a passar neste tempo de ensino à distância, por exemplo, no Ensino Básico que viu este mesmo 3.º período ser prolongado em mais três semanas do que o previsto no calendário inicial.

Afirmou o primeiro-ministro, de acordo com vários órgãos de comunicação social, que este 3.º período é “essencial” para “treinar a comunidade educativa” e para “preparar” o próximo ano lectivo. O que, como escrevi, em si até parece razoável e lógico. Sim, estes meses deveriam ser de preparação do futuro a médio prazo, de avaliação do que tem sido feito, o que pode ser mantido em caso de nova emergência, o que deve ser mudado porque não está a correr bem e o que deve ser feito de completamente novo, pois algumas das soluções actuais foram de recurso e não devem ser para manter, com ou sem emergência.

No caso do Ensino Básico (como do pré-escolar) há problemas evidentes que foram destacados logo nos primeiros dias de suspensão das aulas presenciais e que o tempo só veio confirmar. O primeiro deles é o agravamento das situações de desigualdade de acesso à Educação, quando se faz a passagem do ensino presencial para um ensino não-presencial com recurso a meios digitais. E não se soluciona apenas com adaptações na forma de avaliar – como o secretário de Estado da Educação gosta de repetir – que mascaram que os alunos podem até ter “sucesso” na pauta, mas estão a ficar progressivamente para trás nas suas aprendizagens, por mais demagogia que se acumule em torno do assunto. Nenhum “novo paradigma” nasceu desta situação de ensino à distância. O que nasceu foi uma truncagem do velho modelo, para quem assumiu com realismo que deveria fazer no final do 2.º período uma avaliação já devidamente ponderada dos alunos, ou um mero remendo, para quem ainda insiste em considerar que no 3.º período pode ser feita uma avaliação das aprendizagens realizadas, diversa da anterior, que seja justa e equitativa para os alunos. Repito e sublinho que não chega garantir a transição a todos (ou quase) os alunos para que isso se transforme num qualquer “novo paradigma”, muito menos em algo desejável nos moldes em que está a acontecer.

Uma segunda questão é perceber o que significa (como se pode ler numa longa peça de ontem no Observador) o que o ministro da Educação designa como ano de “recuperação e de soluções inovadoras”. Se isso não passa, como se pode ler na mesma peça, apenas por não ter todos os alunos na escola e haver “menos matéria” e que os programas dever ser (ainda mais) reduzidos. O que não chega para resolver nada, se continuarmos a acreditar que esta rede de ensino à distância com os meios tecnológicos dos professores e dos alunos pode continuar a funcionar. E não pode porque o governo não pode esperar que isto se torne na única variedade de parceria público-privada em Portugal em que são os privados a pagar todo o investimento e o Estado arrisca zero.

O “treino” do próximo ano lectivo é necessário, mas não se é para replicar o que está a ser feito com base no voluntarismo e improviso. Ou se é para servir de base a um modelo de Ensino Básico ainda mais truncado, desigual e de “sucesso” por decreto. Os alunos merecem muito mais do que isso.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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Comentários
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Lalande
De acordo.

O que é de temer é esta "autonomia" por decreto venha a vingar.
16-05-2020
 
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