PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 57 – O ónus da prova

Tive acesso esta semana a um documento orientador de um agrupamento acerca da avaliação a desenvolver no 3.º período onde se determina que os docentes e conselhos de turma terão de fundamentar “exaustivamente” qualquer retenção que proponham no final de Junho.
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Tive acesso esta semana a um documento orientador de um agrupamento acerca da avaliação a desenvolver no 3.º período onde se determina que os docentes e conselhos de turma terão de fundamentar “exaustivamente” qualquer retenção que proponham no final de Junho.

Ora bem… eu concordo em absoluto que as retenções devem reduzir-se ao mínimo no actual contexto e já escrevi que neste período a avaliação deve corresponder, no essencial, à que já foi feita e ponderada de forma, quiçá exaustiva, no 2.º período. Que a existirem alterações devem ser no sentido da subida de alguma classificação. E que sei perfeitamente que qualquer retenção no Básico ou classificação no Secundário está sob a ameaça de um recurso que, por mal feito ou fundamentado que apareça, tem quase todas as condições para ter sucesso.

Mas… eu pensava que os docentes já estão habituados há anos a fundamentarem de forma exaustiva e arrisco mesmo que competente e sensata. Porque há muitos anos que a pressão é grande e as decisões não são tomadas assim de forma displicente ou preguiçosa. Aliás, já agora em termos de confissão pessoal, eu mesmo tive de relembrar isso há uns anos a quem, de passagem rápida pela minha escola, procurava forçar retenções em forma de desforço pessoal. Era alguém relativamente “jovem” e teve de ser aqui o “velho” a ser algo desagradável para que a avaliação fosse justa, mesmo que não necessariamente exaustiva. Mas fui desagradável com a pessoa à minha frente, olhos nos olhos. Não o fiz por interposto documento.

Já sabemos que é sobre os docentes que recai quase em exclusivo o ónus da prova de qualquer decisão sobre a progressão ou retenção dos alunos. Há momentos em que sentimos que o desempenho dos alunos é acessório e que o dos professores é que está em causa em cada pauta. Há alturas em que ficamos exaustos com tão exaustiva forma de exaustivamente quererem que fundamentemos exaustivamente as nossas decisões. Em especial quando tamanha exaustividade é praticada por quem não avalia alunos há tanto tempo que nem sei se ainda saberia como o fazer de forma exaustivamente fundamentada para além do alinhamento de chavões redundantes, mesmo que ribombantes.

Por favor, a menos que queiram alumiar o caminho com a vela do exemplo prático, deixem-nos trabalhar, como dizia o outro que gostava de comer bolo-rei com a boca toda.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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