A PARTIR DA INTENÇÃO

Recomeçar a relação em tempos de pandemia

Lembra-te, o teu filho aprende com quem tu és. Ele vê muito além das máscaras da parentalidade. Quanto mais velho ele fica, menos se vai deixar manipular. Em vez de pensares no que podes fazer em relação ao seu comportamento, decide quem queres ser na relação com ele.
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Nuno, o pai da Rita falava pausadamente, com um tom de voz baixo. Tão diferente das outras vezes que estive com ele. O homem confiante, assertivo e muito seguro de si e das suas convicções já não estava presente.

– Ela não só não quer saber da minha opinião para nada… simplesmente não quer saber de mim… Quase nem me olha nos olhos… é bom dia e boa noite e pouco mais.

Com a entrada na adolescência da filha, o Nuno acabou por se confrontar com uma realidade bem dura. Ele não tinha uma verdadeira relação com a filha. Como muitos pais e muitas mães nesta situação, apercebeu-se de que se tinha escondido atrás de ideias sobre a parentalidade baseadas em gestão de comportamentos: castigar quando se porta mal e premiar quando se porta bem. E até agora tinha funcionado. Perfeitamente. A Rita não tinha dado assim tanto trabalho. Comparado com o irmão mais novo era uma maravilha. A Rita mudava rapidamente de comportamento quando era castigada, muitas vezes bastava uma ameaça. Escolhia comportamentos diferentes quando era premiada, como tinha acontecido, por exemplo, com os estudos e as notas no ano letivo passado. Até agora. Com 15 anos e a entrada para o 10.º ano, tudo mudou.

O Nuno alegava que a culpa era da “adolescência”, esse período “tão difícil”. Mas sentia-se pela primeira vez na sua vida adulta totalmente impotente. Não havia prémio que servisse de estímulo, nem castigo que causasse medo suficiente para ela fazer escolhas diferentes.

– E agora? – dizia-me o Nuno com muita tristeza.

– Agora, Nuno, podes recomeçar, criando uma nova relação com a tua filha. Uma relação baseada na igualdade, respeito pela integridade, autenticidade e responsabilidade pessoal. E tens de ser tu a assumir 100% da responsabilidade em primeiro lugar.

O Nuno estava decidido. Fez tudo ao seu alcance para mudar a relação que tinha com a filha. Começou por estabelecer intenções claras, fez um profundo autoquestionamento. Refletiu sobre a forma como tinha sido educado e a influência que essa educação tinha tido na forma de ele exercer a sua parentalidade… e a forma como tudo isto tinha danificado a relação com a filha. Encarou a realidade de que a culpa desta situação não era nada da “adolescência”. Percebeu que estavam neste ponto por ausência de uma relação forte. Adotou uma atitude de profunda curiosidade e começou a ver a Rita na sua essência. Sem ideias preconcebidas sobre o que é a adolescência, trocando-as pela crença de que este período da vida é de um potencial incrível.

E sem os filtros que ditavam o que ele gostava de ver, ele conseguiu reconhecer a Rita como ela queria ser.

Lembrei-me hoje desta história, pois tenho recebido várias mensagens de mães que têm desafios com os seus adolescentes neste tempo de confinamento. E normalmente, quando começamos a investigar a relação entre pais e filhos, descobrimos coisas muito parecidas com a história do Nuno. A esses pais e essas mães tendo a dizer o mesmo que disse ao Nuno:

– Agora, podes recomeçar criando uma nova relação com a tua filha. Uma relação baseada na igualdade, respeito pela integridade, autenticidade e responsabilidade pessoal. E tens de ser tu a assumir 100% da responsabilidade em primeiro lugar.

Quando observo a relação que o Nuno tem com a filha hoje faço-o sempre com um sorriso e com muita gratidão por poder ter assistido a este processo, a esta transformação. Por poder ver que um homem como o Nuno, tão convencido sobre a forma certa de agir, teve a coragem de questionar as suas crenças e experimentar algo diferente.

Lembra-te, o teu filho aprende com quem tu és. Ele vê muito além das máscaras da parentalidade. Quanto mais velho ele fica, menos se vai deixar manipular. Em vez de pensares no que podes fazer em relação ao seu comportamento, decide quem queres ser na relação com ele.
 

Mikaela ÖvénEstudou ciências comportamentais na Universidade de Lund, Suécia, e é licenciada em Recursos Humanos com a especialidade de desenvolvimento de competências pela Universidade de Malmo, Suécia. É coach e practitioner em Programação Neurolinguística, certificada em Competências de Relacionamentos nas Escolas, facilitadora Family Lab e instrutora de Mindfulness certificada desde 2012. Estudou Generative Coaching, Family Communications e Positive Parenting. É também fundadora da Academia de Parentalidade Consciente. Trabalha também com empresas, organizações, escolas e infantários, facultando workshops, cursos e consultoria. É mãe de 3 filhos.
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