PESO-PLUMA

Saia travada

Saiu, com o seu metro e cinquenta, no alto dos seus 22 anos, dona de um curso tirado e de um belíssimo par de pernas, para dar aulas na sua primeira escola.
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“Eu visto-me como eu quero e se me apetece usar saia curta, é saia curta que eu vou usar. Já não sou nenhuma garotita!”. Já antes tinha dito coisas assim parecidas à mãe, modista e conservadora à sua moda. Hoje teve de dizê-lo, novamente. Ainda por cima num dia tão importante como este. Saiu, com o seu metro e cinquenta, no alto dos seus 22 anos, dona de um curso tirado e de um belíssimo par de pernas, para dar aulas na sua primeira escola.

Mal entrou, invadiu-a o celebrado e tradicional nervoso miudinho. Era uma escola secundária, maior do que qualquer outra que conhecera. Grandes corredores, pejados de miudagem pré-adulta. Com passos pequeninos e ligeiros, atravessou uma turba ordeira de olhares que se despejavam sobre si. Um piropo inaudível indignou-a minimamente. Esticou a saia para o joelho. Preparava-se para subir umas escadas de acesso à sala de professores, quando uma funcionária a travou, com simpático fascismo:

“Ó menina, essa escada é só para professores. Vai dar a volta, filha!".

Ainda demorou alguns segundos a congeminar aquela ordem, tão inesperada. Saiu-lhe, tímida e escusadamente: “Eu sou a nova professora. Dou Geometria Descritiva.”

A auxiliar não sabia onde se enfiar. Saiu-lhe, com um perplexo embaraço: “Ó, chotôra, desculpe, não a conhecia. Tem um ar tão jovem e – hesitou olhando para as pernas da professora – assim tão jovem e tão bem vestida. Tão... jovem...” – repetiu, ensimesmada. “Não tem mal, a sala de professores é aqui ao cimo das escadas, não é?” – perguntou, com amabilidade. “Sim, sim, é mesmo ao cimo.” – prometeu.

O resto do dia foi muito como se esperaria dela; marcou o terreno com profissionalismo irrepreensível e, nas turmas, uma atmosfera amável e um notório empolgamento com esta nova professora, "tão jovem”.

Ao fim do dia, entrou no seu carro e sentou-se, a sentir-se exausta. Parou, para parar. "Tão jovem" – recordou. Tomou, então, com urgência comedida, uma decisão. Ligou o carro e foi para casa ter com a sua mãe, que a esperava, ansiosa.

Durante o jantar, contou-lhe tudo e riram muito da confusão da funcionária. Arrumaram a cozinha e foram as duas para o gabinete de costura. A mãe pegou na saia da filha, virou a bainha e confirmou. “Ainda tem muito tecido, sim. Pode baixar-se uns bons três dedos. E com um casaco tipo Chanel, ficas com um ar mais de professorinha. Temos de ir às compras, filha. Eu vou contigo”. “Sim, sim. Mas achas que consegues fazer-me isso já para amanhã, mãe?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

 

Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
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