PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 46 – Paradoxos do reskilling

Ligo a televisão e vejo uma jovem especialista em recursos humanos de nacionalidade indefinida a falar em inglês “técnico” acerca da aceleração do reskilling nestes últimos meses. E não consegue esconder o entusiasmo perante o que ela diz ter sido uma transformação rápida no mundo do trabalho que antes se dizia ser matéria para anos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Ligo a televisão e vejo uma jovem especialista em recursos humanos de nacionalidade indefinida a falar em inglês “técnico” acerca da aceleração do reskilling nestes últimos meses. E não consegue esconder o entusiasmo perante o que ela diz ter sido uma transformação rápida no mundo do trabalho que antes se dizia ser matéria para anos. Seguiram-se outros testemunhos, já em português comum e com menor nível de entusiasmo, a corroborar que o desenvolvimento de novas skills era algo pedido pelas “novas gerações” e que isso foi conseguido em poucas semanas devido ao estado de calamidade. Claro que tudo polvilhado com aquele vernáculo típico dos empreendedores nacionais que colocam muito franchisado em tudo, muito branding e mais todos aqueles ings que nos enriquecem imenso as skills linguísticas (ou linguistic competências).

E eu sinto-me quase culpado por não partilhar de tão imenso entusiasmo, confiança e assertividade. Sou um caso evidente de reskilling falhado.

E ainda me sinto mais complicado por pensar que, se a mudança foi efectivamente assim tão rápida e radical, porque andam os empreendedores nacionais, e seus agentes mediáticos, tão preocupados em demonstrar que o desconfinamento é essencial para a economia não entrar em colapso. Mas então o reskilling não deveria ter resolvido boa parte desse problema? Ou será que o reskilling não passa de uma variável entre muitas e que não há novas competências que resolvam a óbvia necessidade das “velhas”, em especial num país com uma estrutura produtiva muito frágil e onde ao primeiro embate sério há uma correria desenfreada das elites liberais para o guarda-chuva estatal? Bastam menos de dois meses para as medidas proteccionistas do Estado – péssimas para regularem as relações laborais – se tornarem indispensáveis para o mundo empresarial?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.