PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 37 – Esta não pode ser a “nova normalidade”

Qual o sentido de usar plataformas que, depois de preenchidos os dados e formulários iniciais, nos dão todo o tipo de relatórios sobre o acesso e actividades desenvolvidas, se depois se vão pedir tabelas e relatórios em outros suportes com formulários “novos”?
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Muito menos a futura normalidade. E não falo no confinamento ou distanciamento social com que eu, assumido ser pouco gregário e avesso a juntamentos, consigo lidar sem especiais problemas, ansiedades ou aquelas angústias que leio ou ouço a outros declarar. Sim, necessito de uma visita ao barbeiro, mas é por necessidade, não por saudade. O mesmo com as livrarias e papelarias, porque o papel impresso é para mim também uma necessidade. Não é pela saudade propriamente dita dos espaços indistintos dedicados ao grande consumo em que se transformaram as grandes cadeias que dominam o mercado. Saudade talvez dos alfarrabistas populares que foram fechando, restando cada vez menos que não sejam mais uma variedade de lojas gourmet. Ou de papelarias que não ofereçam apenas o que as distribuidoras acham que vende, com expositores que mal se distinguem entre si.

Aquilo de que falo (escrevo) é de uma “nova normalidade” que se assemelha a uma servidão digital e da qual já me queixei mais de uma vez, só que mais uma vez ainda não é demais. Porque estamos a desaproveitar o que de melhor poderia ter uma “transição digital” ao importarmos para ela os erros que foram marcando a deriva hiperburocrática da administração educativa nas últimas duas décadas.

Qual o sentido de usar plataformas que, depois de preenchidos os dados e formulários iniciais, nos dão todo o tipo de relatórios sobre o acesso e actividades desenvolvidas, se depois se vão pedir tabelas e relatórios em outros suportes com formulários “novos”? Que raio de ideia é a de se pedirem relatórios diários ou semanais da presença dos alunos nas sessões síncronas, se foi dito que a assiduidade não iria ser registada ou tida em conta para a “avaliação” do 3.º período? Vamos continuar a desconfiar do trabalho dos docentes, exigindo a representação das suas aulas em grelhas de planificações como se tivéssemos parado no tempo das velhas profissionalizações e estágios do milénio passado?

Se é suposto o mundo digital facilitar a vida às criaturas humanas e ser uma ferramenta que permite a poupança de tempo da realização das tarefas, porque será que a maioria dos docentes (excepto os que são uma espécie de fonte inesgotável de serotonina, como se a produzissem ao respirar) se está a sentir soterrada em tarefas que me parecem redundantes ou mesmo desnecessárias, nada acrescentando de vantajoso para o trabalho pedagógico?

Se esta é a “nova normalidade” acho que prefiro um corpo a corpo com o raio do vírus.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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