PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 36 – Os entusiastas da pandemia

O que está a ser feito em pouco tempo é meritório, tem algumas qualidades, mas é uma solução de recurso, com evidentes fragilidades e, apesar de algum grafismo animado, dificilmente se pode considerar um grande (ou pequeno) avanço na forma de conceber a Pedagogia ou mesmo a Didática. Estamos num período de emergência, ao nível político foram definidas prioridades e tomadas decisões e eu compreendo isso. Mas é escusado estar a pensar que se fez alquimia, porque não.
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Desde as primeiras semanas que se percebeu que um grupo de pessoas, nem todas docentes, encararam este período como uma “oportunidade” para fazer o que apresentam como uma espécie de “revolução” no ensino e deste modo adequá-lo ao que nos seus deslumbramentos conceptuais consideram ser a “Educação do século XXI”. E multiplicaram-se em declarações entusiásticas.

Não consigo partilhar deste estranho entusiasmo.

O que está a ser feito em pouco tempo é meritório, tem algumas qualidades, mas é uma solução de recurso, com evidentes fragilidades e, apesar de algum grafismo animado, dificilmente se pode considerar um grande (ou pequeno) avanço na forma de conceber a Pedagogia ou mesmo a Didática. Estamos num período de emergência, ao nível político foram definidas prioridades e tomadas decisões e eu compreendo isso. Mas é escusado estar a pensar que se fez alquimia, porque não.

Contudo, em nome de uma espécie de “união sagrada” parece ser proibido criticar seja o que for e, pelo contrário, abdicar de qualquer capacidade reflexiva. Como se tivéssemos dado um súbito salto para uma qualquer ditadura da opinião, os “entusiastas da epidemia” tratam como se fosse horrível meliante quem apontar falhas à metodologia das aulas síncronas por videoconferência, ao empilhamento de planificações diárias, semanais e mensais, bem como aos relatórios de presenças (mesmo se não se devem marcar faltas) e de monitorização e avaliação das aprendizagens (mesmo se criticam as visões limitadas da “avaliação”).

O que esta situação trouxe, foi uma espécie de regresso de uma facção ligada às teorias construtivistas na Educação, agora com um poder que praticamente nunca teve e uma intolerância e agressividade que sempre criticaram a outros. Parece que é agora ou nunca que “vencem” uma guerra que andam a travar desde que as suas ideias foram novas. E o que deveria ser uma oportunidade para debater concepções e ideias, tornou-se uma espécie de disputa com contornos de realização pessoal que não admite contraditório.

A minha realização pessoal ou profissional passa pelo reconhecimento que possa merecer aos meus alunos, nunca por me exibir perante os colegas em demonstrações de pavoneante exibição de uma nova sabedoria digital que ainda em Fevereiro era mal conhecida, mas agora se traduz numa multiplicidade de propostas e sugestões que se percebem ser recomendações que, caso não sejam seguidas, serão motivo de relatório posterior.

Há pessoas que deveriam conhecer o prazer de ler um bom livro. Até pode não ser de literatura para National Book Award ou Booker Prize ou ensaio para Pulitzer, mas qualquer coisa que lhes faça abrir um pouco a mente para outros assuntos que não escola-escola-escola. Preencham esse vazio existencial com uma de tantas criações maravilhosas da Humanidade. Podem ir para o mundo digital, mas visitem belíssimos sites de museus, ouçam uma peça musical que vos arrepie no bom sentido.

Mas, por favor, não façam tudo como se estivessem a aplicar um plano quinquenal. Ide à descoberta, como tanto afirmam defender.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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