PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 30 – O último voo de Sepúlveda

Sepúlveda morreu? Ou será que chegou à beira do abismo e voou?
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Não faço parte da imensidão de portugueses que já estiveram (ou dizem ter estado) com Luís Sepúlveda ou que a cada passo. Sou apenas um seu leitor razoavelmente dedicado desde que comprei a 6.ª edição (Novembro de 1995) de O Velho que lia romances de amor. O seu espírito romanesco com o seu quê de nostálgico romantismo, próprio de um tempo que já então quase não existia fora de alguma literatura sul-americana, trouxe-nos um aroma que contrastava agradavelmente com o espírito dos tempos de um mundo ocidental rendido ao utilitarismo e à racionalidade financeira. Num limiar difícil de manter (um pouco como a Laura Esquível dos primeiros tempos) entre uma forma renovada de realismo e o mundo das fábulas.

Quando um par de anos depois nos chegou a História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar (voltei curiosamente a comprar um exemplar da 6.ª edição) a empatia com o universo criado foi ainda mais imediata, não sendo a isso estranha a paixão comungada pelos felinos, pois foi Sepúlveda que em 2013, em declarações ao Público, afirmou que sentia “uma química especial com eles. Todos os gatos se aproximam de mim, nenhum se afasta.”

Foi desse modo que rapidamente me surgiu a ideia de ler a obra no contexto das aulas de Português do 2.º ciclo. Leitura feita em voz alta, com a dramaticidade adequada a cativar a miudagem de 10-11 anos, porque são idades em que ainda gostam muito de ouvir as histórias antes de as ler propriamente e porque para mim fotocópias não são o meio mais adequado para se entrar no mundo dos livros, de os folhear e sentir nas mãos, ao mesmo tempo que se sente o cheiro da tinta e papel se temos a sorte de os poder comprar o mais acabadinhos de sair que é possível. Embora para o leitor militante também se aceite de bom grado o aroma do papel amarelecido pelo tempo.

Os meus alunos do final dos anos 90 do século XX e inícios do século XXI foram muito cedo introduzidos no universo que gosto de designar como “realismo fabulástico” de Sepúlveda, com especial destaque para gato Zorbas que ensinou a Ditosa gaivota que só voa quem se atreve a fazê-lo. E todos voámos com eles e mesmo agora, quando as prescrições administrativas me dizem que é leitura de 7.º ano, ainda lhes damos uma piscadela de olho quase todos os anos.

Sepúlveda morreu? Ou será que chegou à beira do abismo e voou?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.