PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

COVID-19 | Dia 9 – E onde ficam a “Equidade” e a “Justiça Social”?

O ensino à distância em modo apressado começa a fazer estalar o verniz de camada fina que cobria a práxis em torno de alguns dos conceitos mais propagandeados nos últimos anos na área da Educação.
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Imaginemos que conseguimos – por manifesta singularidade do génio da lusitana raça – colocar em funcionamento até meados de Abril uma rede de ensino à distância com recurso aos meios de educadores, professores e famílias dos alunos. Alguém acredita que essa solução não agravará a pré-existente desigualdade de oportunidades entre os alunos que a Escola Pública tenta combater todos os dias dos portões para dentro?

Alguém acredita que, mesmo que as operadoras de telecomunicações reduzam os tarifários e alarguem a banda em todo o país e que o ministério consiga parcerias favoráveis para distribuir equipamentos pelos grupos mais desfavorecidos, a situação será vagamente equitativa ou justa do ponto de vista social?

Não se percebe que, embora seja uma forma de remediar um 3.º período em evidente risco, esta tentativa de criar uma rede de tele-ensino irá potenciar a disparidade de meios materiais e de capital cultural ao dispor dos diversos estratos de alunos?

Nas escolas públicas, os professores tentam apoiar da forma mais equitativa possível os alunos e ajustar as estratégias (de ensino, de remediação de necessidades, de avaliação) de acordo com cada “perfil”, mas isso depara sempre com os elevados níveis de desigualdade dos contextos familiares, em especial na capacidade de apoiar os alunos no estudo e na realização dos famigerados trabalhos de casa.

Será apenas uma minoria a perceber que, à distância, esses fenómenos serão agravados? Que serão ainda mais sensíveis e quase inultrapassáveis as diferenças entre quem tem um meio social, económico e cultural favorecido e os “outros”? Que é por estes terem um ecrã à frente e net que toda a sua vida muda de configuração?

É este um problema inultrapassável e paralisante de qualquer iniciativa? É óbvio que não, mas não é ignorando estas questões – centrais para a missão da Escola Pública – que caminharemos para as soluções mais justas e equitativas. Ou fazendo inquéritos, depois da carroça já ir estrada abaixo.


 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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