PESO-PLUMA

Maçarico

No momento em que estas palavras saíram da sua boca, toda a turma se calou, estarrecida. O aluno estacou, perplexo, durante um segundo e logo desabou num choro compulsivo, num pranto genuíno e incontrolável.
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Estava a ganhar-lhe o jeito, quando tudo aconteceu. Já sabia os cantos à casa; na sala de professores já ninguém o tomava por maçarico; tinha em preparação uma viagem com os alunos a Estrasburgo, a convite de uma deputada; lançou a ideia de fundar um Clube Europeu. A escola parecia acompanhar os seus primeiros passos na profissão e não lhe regateava louvores. Aliás, a vice-presidente chegou mesmo a confidenciar-lhe que estaria interessada em que ele integrasse a equipa dos horários para Agosto.

Entrou na sala de aula com uma turma do décimo ano. Consentiu o burburinho habitual de miúdos a voltear pela sala e a mostrar as últimas no telemóvel; “Vá lá, desliguem lá os aparelhos, vamos começar.” – atirou, sem grande convicção. A maior parte dos alunos sentou-se e começava a abrir cadernos e livros. Cinco miúdos tardavam ainda em sentar-se, inventando formas antigas de vaguear pela sala. Repetiu, com leveza, a instrução: “Vá, sentem-se. Já está toda a gente sentada e vocês por aí a passarinhar”. Depois de alguns segundos, apenas um rapaz permanecia, fingidamente ocupado, sem sentar-se. O professor já reparara nele, mas decidiu aguardar um segundo mais. Paciência.

Mas o nómada não se sentou; andava por ali de mesa em mesa, sem razão de jeito. Vendo que o rapaz não obedecia, o professor protestou: “Artur, senta-te!”.

“– Já vai!” – vociferou o aluno, com destempero malcriado. Depois daquele longo exercício de paciência, o jovem professor não se conteve:

“– Ouve lá, ó rapazinho, tu julgas que estás a falar com o teu irmão mais novo, ou quê?”

No momento em que estas palavras saíram da sua boca, toda a turma se calou, estarrecida. O aluno estacou, perplexo, durante um segundo e logo desabou num choro compulsivo, num pranto genuíno e incontrolável. Lágrimas cheias desmoronavam-lhe cara abaixo e ia soltando uns rugidos de fúria contida. Um dos colegas levantou-se e foi tentar abraçá-lo.

O professor estava lívido. Nada fazia sentido naquilo. Foi então que um colega atirou uma frase assassina:

“– Ó Artur, o professor não sabia…”

Não só não sabia, como não conseguia sequer acreditar no que estava a acontecer. Todos ali pareciam saber que algo de muito sério tinha acontecido.

Foi neste estado de estupor que o jovem professor mandou toda a gente sair da sala. Todos, menos o rapaz que continuava a chorar incessantemente.

Ficaram os dois. O professor perguntou-lhe o que se passou ali. “O meu irmão mais novo faleceu há duas semanas.” – respondeu o rapaz.

Atordoado, o professor chegou-se ao miúdo e sem dizerem uma palavra, ficaram os dois a chorar, num abraço rigoroso e mudo que durou metade da aula.
 


Quando já não sobravam mais lágrimas a nenhum deles, o miúdo quis abraçá-lo outra vez com força e pediu desculpa. O professor não conseguiu responder. Mandou entrar a turma e não parou de chorar até hoje.

“– Bienvenue à Strasbourg!”, sorriu a deputada.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
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