PESO-PLUMA

Piercings pedagógicos

Com muita brandura e de voz excessivamente baixa, uma colega já entradota e também baixinha segredou-lhe: “Peço desculpa. Não me leve a mal, mas o colega não vai dar aula de calções e chinelos, pois não?”
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Ouvia-se o toque de entrada quando sentiu um dedo firme a picar-lhe o ombro. Voltou-se. Com muita brandura e de voz excessivamente baixa, uma colega já entradota e também baixinha segredou-lhe: “Peço desculpa. Não me leve a mal, mas o colega não vai dar aula de calções e chinelos, pois não?”. O jovem professor sentiu um sobressalto, mas lá respondeu: “Sim, vou… não pensei que… É permitido, não é?”. “Bem, quer-se dizer… ser permitido, é. Só não sei se é mesmo isso que o colega quer fazer…” – disse ela, sorridente – “Um dia vai querer pôr um travão e não consegue, digo eu, vá. Olhe, você é que sabe.” E, sem mais, abalou da sala de professores. O jovem professor estacou. De repente, tudo o que preparara afincadamente para a sua lição – “A Questão Coimbrã” – passou para segundo plano. Examinou-se mentalmente de cima a baixo. Estava de T-shirt, calções e perna ao léu, porque o dia estivera bonito, solarengo. Os chinelos de dedo, de boa marca, eram caríssimos – para uns chinelos de dedo. Códigos de indumentária escolar? Neste seu primeiro ano de aulas, nunca tinha sequer pensado nisso.

Mas algo nele lhe tagarelava que isto do que se leva vestido para dentro de uma sala de aula tem que se lhe diga. Ecoaram-lhe frases que ele mesmo repetira muitas vezes: “O que mais se ensina dentro de uma sala de aula é aquilo que o professor é, não aquilo que ele diz.”. “O dito ‘currículo oculto’ é o mais potente de todos.”. “Os alunos parecem scanners de professores. Não há milímetro que lhes passe despercebido.”

Decidiu-se. De resto, não havia como retroceder na roupa que escolhera para esse dia. O jovem professor entrou, confiado, na sala de aula, mas sentindo uma incomodativa devassa íntima que não conhecera até então. Ao andar, ouvia, ensurdecedor, o flap flap vindo dos seus pés. Sentou-se, então, à secretária. Decidiu ficar ali a aula toda. Servia-lhe de saia comprida.

A aula começara. Da boca saiam-lhe textos e excertos de matéria, enxertos de reflexões de estética literária, figuras de estilo, poesia, modernismo, romantismo e Escola de Coimbra e Geração de 70 e Pinheiro Chagas e Ramalho Ortigão, mas não conseguia esquecer o comentário da colega.

Em simultâneo nascera nele, sigilosa e tenaz, uma crescente indignação. “Mas agora temos um dress code para dar aulas, é? Proibir professores e alunos de usar esta ou aquela peça de vestuário? Posso até entender que um uniforme escolar anula muita da atenção excessiva que eles dão à roupa e evita a ostentação de luxos. Também serve para detectar elementos estranhos à escola. Mas também faz com que se criem preconceitos sexistas: as meninas têm de andar de uma forma e os meninos de outra. Não dou para esse peditório. A escola tem de ser “despida” de preconceitos. A roupa é uma forma de expressão como outra, homessa. Os alunos devem usar o que quiserem e os professores também. Não nos faltava mais nada. O bom senso é dress code suficiente”.



Estava ele neste feroz e privado debate quando uma aluna esticou o braço, revelando, inteira e alabastrina, toda a sua barriga e, num umbigo, um piercing cintilou: “Professor, quando o Antero de Quental respondeu ao Feliciano de Castilho, não teve resposta?”.

O jovem professor vibrou. Sorriu calmamente e levantou-se da secretária para lhe responder.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
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