PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

As Guerras do PISA & Manjerona

Esta foi semana de divulgação dos resultados do PISA 2018 e nesta altura, mesmo entre os que publicamente desdenham de rankings, testes e comparações internacionais, há sempre uma dose acrescida de excitação para se tentar perceber quem pode reclamar louros ou a quem se podem apontar dedos acusadores pelos resultados que deveriam ser dos alunos. Como se em períodos de três anos fosse possível fazer o exame rigoroso de políticas que devem ser perspectivadas na longa duração.
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É raro não aparecerem os governantes do momento – ou de um passado mais ou menos recente - a reclamar que foram suas as medidas que conseguiram tudo de bom; e sejam quais forem os resultados alcançados eles justificam as “mudanças de paradigma” em implementação ou projecto. Se corre bem é porque o trabalho está certo e deve ser continuado, se corre mal está explicada a necessidade de aprofundar a mudança que ainda não produziu efeitos e se ficou tudo na mesma é porque se conseguiu estabilizar o sistema. Não há maneira de “perder” a disputa político-mediática.

Este ano não é excepção, até porque os resultados conseguiram dar lugar a todo o tipo de títulos em alguns dos maiores órgãos de comunicação social. De acordo com o Expresso houve queda a Ciências, de acordo com o Público desceu-se em Ciências e na Leitura, mas continuamos globalmente acima da média da OCDE e de acordo com a TSF, Portugal é o único país que revela uma melhoria constante na última década. Confuso, decidi parar e ir espreitar a fonte em si. E é bem verdade que há resultados para todos os sabores, mas nenhum que “prove” a bondade de um mandato em relação a outros. Porque, como acima escrevi, a evolução dos indicadores educacionais podem ter oscilações epidérmicas, mas o que interessa é seguir o sentido das tendências de médio e longo prazo. E essa tendência não liga muito a políticos ocasionais, reformas em sucessão ou medidas de propaganda que se esgotam quase em si mesmas. Portugal tem vindo a melhorar desde 2000 e essa é uma boa notícia.

Uma notícia que desmente os discursos catastrofistas e demagógicos que dizem que é preciso “mudar de paradigma” porque ainda estamos a pensar como no século XIX. Em especial quando se constata a trajectória descendente de países que durante anos a fio se apresentaram como as luminárias supremas em matéria de Educação, sem o devido cuidado em contextualizar em termos históricos, socio-económicos e culturais o seu lugar cimeiro de outrora, como aí chegaram e, já agora, porque o seu declínio parece ser uma evidência indesmentível ou porque outros começaram a recuperar quando decidiram travar as reformas que por cá se apresentam como a quinta-essência da gestão escolar e curricular. O estudo dos casos da Finlândia e da Suécia deveria ser feito com olhar analítico e não tanto político. Ou compreender que a ascensão do desempenho dos alunos do Extremo Oriente não é facilmente replicável em outras latitudes e longitudes.

Mas voltemos a Portugal: se os alunos que apresentam pior desempenho são os de estratos mais desfavorecidos, seria uma excelente ideia tentar intervir de forma consequente no combate à pobreza, a evidente e a encoberta. Porque em Portugal o aumento da desigualdade na Educação reflecte uma sociedade desigual que não desaparece, como num passe de mágica, com o “sucesso” dos portões das escolas para dentro.

E termino, de forma provocatória e de um modo que alguns considerarão “corporativa”, perguntando qual foi a invariável ao longo deste período de ganhos (nos PISA, mas também nos PIRLS e TIMMS). Não foram os governantes, não foram as políticas curriculares, não foram as intermináveis reformas programáticas, não foram as metodologias de avaliação interna e externa. Nem sequer foram os alunos, mesmo se os resultados são em primeiro lugar deles. Curiosamente, a “invariável” foram os professores que, apesar de envelhecidos e destratados em público, ainda resistem. E, porventura, aqueles que mais dedicam uma atenção crítica às modas passageiras, os arcaicos professores do “século XX” que sobrevivem à espuma dos dias e dos epifenómenos que tanto entusiasmam governantes e especialistas.


*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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