PESO-PLUMA

É homem e basta

“Intercaladinho.”, brincou: “Entro mudo e saio intercalado”, prometeu-se a si mesmo. Uma reunião de professores com a participação de encarregados de educação e de alunos era algo novo; sempre justificava alguma expectativa.
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Mal começa a reunião – tudo mulheres – teve de dizer o seu nome e a sua disciplina. “Pedro Gomes, Inglês”. “É o professor novo.”, felicitou a directora de turma. “Vem de onde?”, avançou uma colega. “Esmoriz.”, “Nunca fui a Esmoriz” – refreou outra. A representante dos encarregados de educação começa, então, a discussão. Que a professora de Geografia mudou o dia de um teste e se isso estava previsto no regulamento interno. Que sim e que não ocupa uns bons quinze minutos de discussão carregada.

A colega ao seu lado murmura-lhe ao ouvido: “Aí vamos nós. Todos os anos é a mesma coisa. Esta senhora nunca deixa de inventar assunto.” E, nisto, sai nova queixa da mãe: “Do que eles gostam menos é das aulas de Inglês, do Professor Pedro Gomes”. Estremece. Todos os presentes concordam, com sorrisos postiços, pensativos, pacatos. A delegada de turma, tímida, também concorda com a cabeça. A colega ao seu lado ainda ironiza: “Já era de prever, é o único homem.”

Ao professor ocorrem-lhe mil questões, mas uma delas é que se perguntar alguma coisa, a mãe e a aluna vão começar a desfraldar ali tudo o que há de mal nas suas aulas e prefere não mexer no assunto, se mais ninguém mexer. Ninguém mexe. De resto, a granada explodiu e ninguém parece ter dado por isso. Todas aceitam, persuadidas, que as aulas de Inglês do Professor Pedro Gomes não prestam para nada.

Calado e escuro como breu, o jovem professor enterra a sua cabeça numa grelha que trazia para anunciar que a turma é óptima e que se “trabalha muito bem com ela”. Agora, depois daquela descompostura toda, já não sabe nada do que há-de dizer. Não lhe resta outra coisa senão titubear que a turma é óptima e que se “trabalha muito bem com ela”. Todas concordam, sereníssimas. E é isto o que mais o ofende. A aceitação plácida de que os alunos não gostam das suas aulas, ainda há um mês entrou na escola, é algo que nem consegue processar. “Mas que raio fiz eu? Nunca tive qualquer problema com esta turma. Correu sempre tudo bem, os alunos participam, nada de estranho sucedeu neste mês e, de repente, ‘Do que eles gostam menos é das aulas de Inglês, do Professor Pedro Gomes’? E as colegas não dizem nada em minha defesa? Por ser homem? O que é lá isso?”

Com a cabeça a mil à hora, ouve dizer que “A partir de agora, a reunião é apenas para os professores”. A directora de turma agradece a presença e as diligências daquela mãe, bem como da aluna. Ambas se levantam e despedem-se com polidez. A porta fecha-se. A reunião continua agora com “apreciações individualizadas”. O jovem professor enche-se de coragem e atira: “Desculpem lá, colegas. Mas eu estou aqui sem pinga de sangue. A mãe disse que os alunos só não gostavam era das minhas aulas?”.

Surpreendidas, as colegas reagem rápidas: “Não gostam? Gostam, pois. O que a mãe disse é ‘Do que eles gostam mesmo é das aulas de Inglês, do professor Pedro Gomes’ – responde, resignada, a directora de turma – “E todos eles comentam o mesmo. Ainda me há-de contar o que é que as suas aulas têm que as minhas não têm. É homem e basta, é o que é”.


*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
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