PESO-PLUMA

Os passos perdidos

Entrados na profissão ainda ontem, trazem consigo as expectativas de tudo quanto desejam que a sua profissão seja.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
O país não pára de falar deles. E ao mesmo tempo nunca pára para falar deles. Deles se diz serem aquilo que mais falta faz às escolas. Que os há cada vez menos. Chamemos-lhes professores em início de carreira. A potência imberbe da nação probatória. A tribo precária do primeiro escalão. Os sherpas dos horários de refugo. Os minerais docentes por lapidar. Os pesos-pluma do sistema de ensino.

De vez em quando lá se repete a cena. Silentes e risonhos, sem razão particular, admitem-se pela sala de professores adentro, tentativos, como se ali não pertencessem. Assisto a esta cena sempre com um misto de comovida nostalgia e riso mordido.

São estes os proverbiais e derradeiros moicanos que, em verdade, ainda nutrem genuína predilecção pelos professores. Entrados na profissão ainda ontem, trazem consigo as expectativas de tudo quanto desejam que a sua profissão seja. Um planeta livre de patrões, onde se escolhem cidades e vilas onde se possa ser professor, com horários diferentes todos os anos, com alunos diferentes todos os anos, com colegas diferentes todos os anos. Uma vida livre e culta, sublime pelo que encerra de nobreza esse acto velho de dar aos mais novos aquilo que os mais velhos tenham para dar. Esperar que o tempo nos demonstre o quanto os mais novos nos souberam ultrapassar. Convocar todos os dias o que de melhor ainda temos por ser.
Que ser professor seja isto. Recordar que esquecer isto representa mais sobre o que pensamos sobre nós mesmos, do que o poder e a potência dessoutro sistema circulatório, nervoso, imunitário, reprodutor, digestivo, que é o educativo. E, de repente, a lição dada em meia dúzia de passos, dados perdidamente por estas núbeis criaturas, revela mais sobre mim do que do julgamento que ainda agora iniciara sobre eles.

Quem são estes seres que aqui me fazem regressar a mim mesmo? Que me devolvem a urgência de os acompanhar no seu entusiasmo, a apagar os seus receios, a tomar como minhas as suas indecisões?

Estes colegas novos são os guardiães daquela perdida inocência que é imperativa na condição escolhida de fazer aprender. A sua defesa é a minha defesa. Neles se depositam as minhas esperanças. Não têm a razão toda, sobretudo se a julgam ter, mas a razão está toda do seu lado. Podem ser os pesos-pluma do sistema, mas são eles que me obrigam a encarcerar o meu cinismo em grades de leveza maior. Porque o cinismo é toda uma filigrana. Como pode um ser humano temer a morte depois de ter ensinado outro a ler? E a pensar? E a estudar? E a sentir?

Descubro que a minha dívida para com estes lobitos da docência é a de me recordarem o peso-pluma que todos devemos exigir e cometer a esta profissão, a mais delicada e joalheira de todas.


*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Rui CorreiaProfessor de História vencedor do prémio Global Teacher Prize Portugal 2019. Conferencista, editor e autor de numerosos estudos de história, património e didática da História, desempenhou funções de vice-presidente do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, External Expert em educação para a Comissão Europeia e Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. É pai de 2 filhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.