PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

A Guerra dos Tronos, Morte e Memória

Muitas das reformas em implementação ou consolidação parecem fascinadas pelo presente e por uma projecção simplista das necessidades de um futuro concebido como o do triunfo de uma tecnologia desumanizada, que tornará desnecessários os saberes “tradicionais”, arcaicos, meramente “enciclopédicos” e, portanto, inúteis.
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Na última temporada de A Guerra dos Tronos, enquanto crescia a tensão perante o ataque do exército dos mortos a Winterfell, o personagem Brandon (Bran) Stark explicava porque o Rei da Noite viria em sua busca, independentemente do resultado da batalha em decurso. A sua explicação era simples: enquanto Corvo dos Três Olhos, Bran tornara-se o receptáculo da Memória do mundo dos vivos, do passado do mundo dos Sete Reinos. Nesse sentido, era o alvo principal do chefe das forças da Morte. A permanência da Memória significaria a vitória da Vida perante a Morte. Por isso, a Morte procuraria, por todos os meios, apagar a Memória.

O mundo da fantasia literária e da versão televisiva da saga épica de George R. R. Martin faz-me ecoar aspectos do nosso presente educacional, em que a actual facção com o poder de definir as opções curriculares do Ensino Básico e Secundário se mostra seduzida por uma ideologia que secundariza as disciplinas relacionadas com a transmissão do que é a Memória do passado comum da Humanidade, não apenas no sentido mais estrito da História mas no plano mais alargado da própria herança cultural e científica.

Muitas das reformas em implementação ou consolidação parecem fascinadas pelo presente e por uma projecção simplista das necessidades de um futuro concebido como o do triunfo de uma tecnologia desumanizada, que tornará desnecessários os saberes “tradicionais”, arcaicos, meramente “enciclopédicos” e, portanto, inúteis. Em que a História se pode servir às fatias, a Filosofia ser circunscrita a um gueto residual, a Literatura render-se a um cânone de onde se expulsa o que é “chato” e em que a própria Ciência só é valorizada se revelar a sua utilidade no contexto de uma sociedade fascinada com a mecanização low cost do trabalho. Em que os suportes digitais se tornam as únicas vias de acesso a uma informação depurada e virtual, sem o incómodo do espaço físico ocupado pelos livros. Em que os dedos deslizam, de forma célere e superficial, sobre ecrãs e não servem para manipular, sopesar, virar as folhas de um livro impresso. Em que o olhar persegue imagens em movimento, numa aceleração incompatível com a reflexão. Em que os ficheiros se acomodam em gadgets com brilho mas sem o cheiro do papel e da tinta.

Assistimos à exaltação do epidérmico, do circunstancial, da moda em trânsito, do arrobo passageiro, do efémero elevado a algo que não é. Lipovetsky, Virilio, Baumann escreveram abundantemente sobre os perigos de ceder a esse tipo de seduções, próprias de um pós-modernismo fascinado pelo esvaziamento e relativização dos conceitos, mesmo quando tudo nos aparece enroupado nas melhores das intenções

N’A Guerra dos Tronos, o combate entre os exércitos da Morte e da Vida é uma poderosa metáfora, até pela simplicidade com que opõe as Trevas à Luz. Os mortos recuam perante o fogo, a luz, mas apenas de forma temporária; ao fim de algum tempo conseguem ultrapassá-lo e a ameaça das trevas permanece. Mas s derrota da Vida só é completa se para além dos indivíduos for eliminada a sua Memória colectiva. Sendo que não podemos esquecer que entre os vivos há aqueles que, como em Westeros, de forma oportunista, ficam na expectativa, achando que podem beneficiar da situação, evitando intervir no combate decisivo. Um pouco como os que, no presente, preferem adaptar-se a quaisquer Situações, abdicando de incómodas convicções.

Só que a defesa da Memória não se compadece com omissões e colaboracionismos de ocasião. Porque a sua erosão é crítica para a construção da nossa identidade enquanto humanos e a sua perda significaria uma derrota da própria Humanidade. Por isso, o Inverno não pode chegar à Educação.


*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
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Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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