PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

O Porquê das Coisas

Questionar o que é enunciado e carece de explicação é tão ou mais importante quando saímos da sala de aula e entramos na esfera das decisões políticas, da forma como são tomadas, preparadas ou divulgadas.
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Já terminara o meu curso de História há 2 anos quando li O País das Águas de Graham Swift. Consta da minha anotação – ainda as fazia, livros com dinheiro próprio eram ainda coisa rara – que o comprei em Julho de 1989, sendo que a ficha técnica indica a edição (da D. Quixote) como sendo registada em Dezembro do ano anterior. Li-o deliciado, como uma preciosidade que me devolvia o encanto que a História exercia sobre mim e justificara a escolha académica feita a contragosto familiar. Em forma de ficção, explica de forma magistral o que move quem quer conhecer mais sobre o que aconteceu, como podemos ler o presente e buscar a explicação acerca dos fenómenos. A pergunta “porquê” surge de forma frequente nas deambulações do professor Crick, nos diálogos que estabelece com os seus alunos, quase como uma obsessão.

“Meninos, não deixem de perguntar Porquê. Não parem com os vossos Porquê, professor? Porquê, professor? Embora seja mais difícil quanto mais vezes vocês o perguntarem, embora seja mais inexplicável, mais doloroso e a resposta nunca pareça ser a correcta, não tente fugir a essa pergunta – Porquê.” (p. 104)

Usei esta citação num dos meus primeiros textos publicados e nunca a esqueci enquanto professor: não se manda calar o aluno que questiona de forma interessada uma explicação que se está a dar, quanto muito pede-se para esperar um pouco, para ver se a resposta está logo adiante. Nos tempos em que vivemos, de nevoeiro imenso e uma realidade reconstruída na base de preconceitos difusos mas fortemente mistificadores e de representação burocrático-estatística do que acontece nas escolas, parece que os professores não o fazem. Desde sempre. Pelo menos, aqueles que se preocupam com as aprendizagens dos alunos, muito antes de artificiosos “perfis”. O diálogo é essencial e sem ele não existe relação pedagógica. Um diálogo destinado a esclarecer, aprofundar, confrontar perspectivas. Em qualquer século, o XXI ou outro qualquer. O estudo da História é muito importante para o compreendermos, talvez sendo por isso que se tornou uma disciplina a salamizar.

Questionar o que é enunciado e carece de explicação é tão ou mais importante quando saímos da sala de aula e entramos na esfera das decisões políticas, da forma como são tomadas, preparadas ou divulgadas.

Quando se anunciam ou apresentam como estando já em desenvolvimento medidas com implicações importantes, deve ter-se a humildade – ou “o espírito democrático” em politiquês – de fazer mais do que as fundamentar em estudos não identificados, remeter para uma fonte única (vivemos a tutela da OCDE, que se alimenta de dados fornecidos por quem depois os recebe como se fossem externos) ou mencionar “alguns países” onde já estarão em aplicação, sem os identificar com clareza e em que condições.

Há semanas, um governante (João Costa) anunciou em entrevista a um diário digital (Observador) e numa conversa numa televisão (TVI24) que se prepara um sistema destinado, na prática, a terminar com qualquer retenção dos alunos. Apoiou-se em frases do tipo “todos sabemos” ou “todos os estudos indicam”, assim como disse que “há países que já o fazem, que não têm retenções nas escolas”. Ponto final, sem que alguém perguntasse quais, desde quando, em que moldes e com que resultados. Não acredito (sou optimista) que medidas deste tipo sejam apresentadas sem algum estudo prévio.

É um imperativo questionarmos estas soluções, em especial quando se apresentam como uma espécie de modelo único. Porquê? E, logo a seguir, questionar se existe fundamentação empírica que não seja auto-referencial. A Democracia deveria ser isto. Mas parece que, por estes dias, perguntar sem guião previamente acordado é quase uma ofensa.
Porquê?

If there's something you'd like to try
Ask me, I won't say no, how could I?
(Morrissey, 1986)

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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