MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“Foi na luminosa verdade daquele ser que eu encontrei o meu caminho”

Também os professores que nos marcam foram marcados por outros professores. José Pacheco recorda quatro pessoas com ternura. Cada um à sua maneira, ajudaram-no a aprender de português, francês... Mas foi o professor que conciliou o saber com os afetos que o levou a escolher o caminho da Pedagogia.
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Perguntámos a José Pacheco o que recorda do seu percurso escolar. Quem foram os professores que o marcaram, tal como ele próprio já marcou muitos dos seus alunos. Incapaz de se resumir a um só, pois todos contribuíram para a construção do seu caminho, José Pacheco partilha os conselhos e aprendizagens que guarda dos quatro professores que recorda com mais carinho.

Eis as "Memórias de Passagem" de José Pacheco.

No meu percurso escolar, houve quatro pessoas que recordo com ternura.

O primeiro foi um professor padre, que me ensinou a pergunta fundadora de toda a pedagogia: O que quereis aprender? E, porque era homem de questionar em tempo de ditadura, de padre e professor passou a "clandestino" por ser considerado "jacobino". E eu, que desconhecia o significado da palavra jacobino, logo fui ao dicionário. A última herança que esse padre-professor me deixou foi a inquietação que me conduziu ao primeiro passo de uma aprendizagem que também lhe fiquei a dever.

Também tive um professor-poeta. Acendeu trilhos poéticos, que me levaram muito para lá dos versos que convencem os adolescentes de que são poetas. Foi o primeiro professor a guiar-me pelas palavras que estão para lá das palavras e das ideias que as palavras ocultam. Provocou deslumbramentos perante Caeiro e solenidade perante os primeiros versos da Sophia. Desocultou poetas malditos e resgatou um Camões que andava naufragado em fastidiosas dissecações de decassílabos.

A minha professora de Francês era uma mulher fantástica, que se envolvia no que ensinava. Interrogava as nossas vidas na língua de Voltaire e de Vian. As suas perguntas, feitas em catadupa, levavam-nos a novas descobertas e à descoberta de nós. As suas aulas produziam um efeito mágico e eu para ali ficava a contemplá-la, absorvendo tudo o que ela dizia, antropofagicamente exaurindo tudo que ela era. Numa alquimia dos sentidos de que só ela conhecia os segredos, levou-me a amar a cultura francesa: Camus, Yourcenar, Eluard, Piaf...

Finalmente evoco o professor que me "desviou" da Eletrotecnia para a Pedagogia. Lograva conciliar duas características aparentemente incompatíveis: era exigente pois a escola é estudo e esforço, transbordava afeto, porque uma escola sem vínculos afetivos é um redil de eunucos. Era um praticante convicto do que se convencionou chamar "ensino tradicional".

Durante alguns anos, também eu fui um professor "tradicional". E orgulho-me de o ter sido. Preparava as minhas aulas com rigor, acreditava ser aquele o melhor modo de ensinar. Isto, antes de conhecer outros modos...

No seu tempo, o professor Lobo foi alvo de depreciação e de calúnias. Creio ser sina dos inovadores, esta de serem vilipendiados. O que fez com que alterasse as suas práticas, ao cabo de dezenas de anos de "tradicional puro e duro", foi a pergunta que um aluno lhe dirigiu: Professor, porque me castigas? Porque não me ensinas? O professor Lobo passou por uma profunda revisão de vida - escutei-o numa das suas últimas palestras, em 1969 - transmutou o autoritarismo (típico das escolas da ditadura) em autoridade. Os alunos passaram a chamar-lhe "mestre" e a tratá-lo na segunda pessoa do singular, numa saborosa mistura em que o afeto não se confundia com languidez.

O professor Lobo não mitigava os afetos. Manifestava-os. Estava ali, inteiro, no dia em que o conheci. Por isso, pude encontrá-lo. Foi na luminosa verdade daquele ser que eu encontrei o meu caminho.

Quando falo de afeto, eximo-me de um idealismo piegas, para o abordar como Freneit o entendia: para aprender, transformar e viver é preciso fechar as fronteiras entre o intelectual e o afetivo, entre o brincar e o desafio.

Portugal deveria conhecer e orgulhar-se dos anónimos construtores de saberes e de afetos, como o professor Lobo. Deveria celebrar a memória de mestres como Agostinho da Silva, que dizia que professor é o que sabe e o que ama.
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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