MEMÓRIAS DE PASSAGEM

Fernando Nobre: “A linha condutora da minha vida encaminhou-me para a medicina”

Nem todas as recordações que temos da escola são positivas. Mas a forma como as ultrapassamos pode tornar-se um ponto de partida de um futuro promissor. Fernando Nobre partilha as suas memórias da escola de Bruxelas, para onde foi com apenas 15 anos.
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Desafiámos Fernando Nobre a falar sobre as suas recordações dos bancos de escola. Pedimos-lhe que escrevesse sobre o que o marcou e contribuiu para a definição do seu percurso como médico e presidente da AMI.

Eis as "Memórias de Passagem" de Fernando Nobre.

O desejo de ser médico acompanhou-me desde sempre, mas a vontade de exercer uma medicina diferente, em grandes espaços e a favor de quem tinha parcos recursos, chegou um pouco mais tarde.

Aos 14 anos tive uma única hesitação e pensei enveredar pelas belas artes. Ainda hoje, costumo dizer que gostava de acabar a minha vida a pintar. Não para ser um pintor ilustre, nunca o serei, mas apenas pelo gosto de desenhar.

Porém, a linha condutora da minha vida encaminhou-me para a medicina. Nasci em África, com raízes multiculturais, por isso, quando pensava em ser médico, imaginava grandes espaços. Todos nós temos alguém que nos inspira. A minha fonte de inspiração foi o Dr. Albert Schweitzer. Admiro a sua obra, apesar de, mais tarde, depois da sua morte, terem dito que era duro e exigente, mas acredito que sem exigência era impossível desenvolver todo aquele trabalho, em plena floresta do Gabão. O meu sonho era seguir-lhe as pisadas.

Em 1967, com apenas 15 anos, fui estudar para a Bélgica, sozinho, sem poder contar com o apoio da família. A integração não foi fácil, até porque eram tempos de menor tolerância. Tive um professor de Francês no Ateneu de Uccle, uma zona chique de Bruxelas, cujo discurso era extremamente xenófobo, de desprestígio dos povos do Sul. Utilizava palavras como "preguiçosos" para os descrever, e outros adjetivos menos agradáveis. Fazia-o a olhar para mim, que era o único estrangeiro na aula, mas isso não me desmotivou, pelo contrário, fortaleceu-me e incentivou-me a continuar, esforçando-me por conseguir bons resultados. Eu era o melhor aluno da turma em todas as disciplinas, à exceção de Francês.

No final do ano, no Grande Auditório do Liceu, reuniam-se os alunos todos para a entrega dos prémios. No meu ano, eu fui distinguido em todas as disciplinas, excepto a Francês, pelo que não posso negar que sentia um gozo especial cada vez que o olhar do professor de Francês se cruzava com o meu nesses momentos. A Francês, eu tinha sempre uma classificação de 5 ou cinco e meio, numa escala de 0 a 10, e quando tinha um 6, sentia-me como se tivesse ganho a medalha olímpica. Nas outras disciplinas, tinha 9, nove e meio ou 10. Queria mostrar-lhe que eu, português, não era inferior aos outros.

Esta continua a ser a minha forma de agir no quadro da AMI. Talvez tenha um espírito competitivo, mas faço questão de que a AMI avance e não se deixe esmorecer perante os obstáculos. Não é fácil e nem sempre agradável essa luta, e a conquista de um novo mundo surge, na maior parte das vezes, como uma utopia, mas o segredo, se é que existe, é nunca desistir, qualquer que seja a adversidade.
Fernando NobrePresidente da AMI.
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