MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“A escola de 1975 não estava ainda totalmente democratizada.”

Em abril de 1975, as escolas do tempo do Estado Novo foram decoradas para a realização das primeiras eleições livres. Maria João Martins frequentava na altura a 1.ª classe e foi incumbida, juntamente com os seus colegas, de assumir essa tarefa. Uma recordação poderosa de uma missão importante.
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Escritora e jornalista, Maria João Martins reconhece a sua capacidade de invenção. Desde muito nova que consegue fazer histórias, tendo mesmo publicado num jornal quando ainda frequentava a então designada 1.ª classe - hoje, 1.º ano do Ensino Básico.

O EDUCARE.PT desafiou a autora a partilhar as suas memórias dos bancos de escola. A sua recordação mostra-nos o seu papel numa escola atribulada, no início do pós 25-de Abril, antes das primeiras eleições livres.

Eis as "Memórias de Passagem" de Maria João Martins.

Ter na mão uma chave

Cheirava a pó de giz, soalho encerado e a suor de crianças irrequietas. Em abril de 1975, as escolas-padrão mandadas construir pelo Estado Novo estavam a ser decoradas para a realização das primeiras eleições livres, marcadas para o feriado em que se comemorava também o primeiro aniversário da revolução. Os empregados da junta de freguesia afadigavam-se a afixar editais e intermináveis listas de cidadãos recenseados e nós, alunos da 1.ª classe, pintávamos grandes folhas de papel cenário com motivos considerados alusivos ao inédito acontecimento. Sobre a superfície branca apareciam milhares de cravos vermelhos, capitães, pais, mães e bebés, sol, nuvens e vento, todos com olhos, nariz e boca. «L-I-B-E-R-D-A-D-E», «25 de A-B-R-I-L S-E-M-P-R-E» lia-se por todo o lado, em toscas maiúsculas copiadas por quem ainda não estava totalmente alfabetizado.

Para circunstância tão especial apareceu uma caixa nova de canetas de feltro. Cronicamente distraída, a menina de bata branca com gola de renda que eu era tendia a picotar vacas com apenas três patas ou a dar cores diferentes às várias parcelas de uma conta. Mas quando se tratava de inventar personagens sobre folhas em branco, superava-me. Uns meses antes, chegara mesmo a publicar no suplemento infantil do Diário Popular um «retrato» de menina de fato às riscas sentada sobre uma bicicleta com um vaso de malmequeres na cabeça. Mas para as eleições, não, não estava a ver. Rejeitava em absoluto cair nos lugares comuns dos cravos, capitães e chaimites sorridentes. O que fazer? Depois de muitos ensaios domésticos, acabei a representar uma esbelta jovem no ato de se encaminhar para a mesa de voto. Levando, é claro, um vaso na cabeça, desta feita com cravos.

A escola de 1975 não estava ainda totalmente democratizada. Mau grado as políticas igualitaristas oriundas do então designado Ministério da Educação Nacional, a relação de pais com a escola mantinha velhos usos de solenidade e subserviência. Havia pais que se quase se desbarretavam caso fossem chamados à presença da professora (tal como faziam com o padre ou o médico da terra) e outros que lhe pediam que fosse generosa... em açoites com os filhos. E havia pessoal não docente que se encarregava de manter a antiga ordem das coisas, sujeitando as alunas mais pobres a limpar as salas de aula ou a tomar conta das outras crianças. Ao fim e ao cabo, tinham muitos irmãos e já estavam habituadas, justificava-se.

O que estes agentes da ordem antiga não podiam saber, no seu acéfalo terror à mudança, é que uma sociedade em mutação destrói quaisquer diques que lhe oponham. Quem quer que tenha encarregado os alunos da 1.ª classe de decorar a escola para as primeiras eleições livres alguma vez realizadas no país, estava a dar-nos a mais importante das lições: a de trazer na mão a chave do futuro.
Maria João MartinsEscritora e jornalista
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