HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO

Escola de pais especiais… Um excelente apoio

Estava sempre irritada, sempre a questionar o porquê de a sua filha não aprender como os outros. Sempre a pôr em dúvida a metodologia aplicada pelos professores.
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Marquei reunião com a mãe da Bárbara! A mãe da Babi transportava, em si, uma revolta imensamente grande. A Bárbara, que é dona de uma beleza extraordinária, tem sérios comprometimentos a nível cognitivo. Foi fruto de uma segunda gravidez muito desejada.

Durante a gravidez, a Babi crescia e desenvolvia-se normalmente. Era um feto igual a todos os outros. Quando chegou a hora do seu nascimento, a mãe naturalmente dirigiu-se ao hospital. Segundo ela, esperou horas e horas de grande sofrimento com a sensação de que se tinham esquecido dela. Finalmente nasceu a Babi.

Finalmente a mãe Assunção podia descansar e ver a sua tão desejada filha.

É típico das mães quererem abraçar o recém-nascido e assegurarem-se de que nasceu "perfeitinho".

Passado pouco tempo de a menina nascer, os médicos comunicaram-lhe, sem qualquer preparação psicológica, que a filha, a tão desejada filha, iria ser diferente. A mãe, incrédula, perguntou o que se tinha passado. Foi-lhe dito que "houve lesão cerebral".

Não conformada, até porque a gravidez foi normal, quis saber mais... na sua mente só poderia haver erro de diagnóstico... até porque quando a Bárbara nasceu, nasceram mais meninas naquele bloco hospitalar. Poderia ser apenas um engano. Só mais tarde é que lhe foi explicado que a filha nasceu assim porque sofreu de anoxia no momento do parto. Aquelas eternas e malditas horas que passou nos corredores do hospital decidiram a diferença. Nunca foi confirmada a negligência médica.

Estes pais nunca acorreram à justiça porque para além das dificuldades financeiras que um destes processos exige, há um desacreditar generalizado, na penalização e na responsabilização do médico. O caminho seria ainda mais penoso!

Lembro-me bem, mãe Assunção, da sua revolta e do seu descrédito perante as instituições. Quando a conheci, ainda não tinha aceite o diagnóstico da Babi.

Lembra-se, mãe Assunção?

Estava sempre irritada, sempre a questionar o porquê de a sua filha não aprender como os outros. Sempre a pôr em dúvida a metodologia aplicada pelos professores.

Achava que a Babi não aprendia porque os professores certamente a puseram de "lado", ou porque não se aplicavam o suficiente. Inclusivamente chegou a ponderar inscrevê-la num colégio particular, sempre à espera de um milagre.

Muito pacientemente, explicava-lhe que as áreas cognitivas lesadas comprometiam severamente o processo da leitura, da escrita e do cálculo e também da motricidade fina. Apesar de ficar mais calma no momento em que falava consigo, no dia seguinte voltavam as exigências, voltavam as dúvidas, acelerando o processo de negação.

Foi com a escola de pais especiais que mudou, mãe. Chorou em grupo, muitas vezes.

Os outros pais, com a experiência de uma criança diferente, já com todo o ciclo de sofrimento percorrido, acalmavam-na e deram-lhe as respostas de que precisava. Foi um processo muito lento, de avanços e recuos. Eu já não sabia mais o que fazer, por si e pela sua família. Lá em casa todos sofriam, incluindo a mana mais velha. Eu tinha que fazer mais... mas como?

Soube que a Babi ia a uma nova consulta no hospital Maria Pia. Ofereci-me para ir consigo. Sorriu e aceitou. E lá fomos nós.

A médica que nos recebeu, após uma espera de vez infinita, recebeu-nos friamente. Expliquei-lhe que era professora do ensino especial da menina e que precisava de mais dados para redefinir as minhas estratégias. A médica respondeu assim, como se responde para despachar, aquilo que nós já sabíamos: "Houve lesão e as células morreram, conforme-se!"

E viemos embora, com a sensação de... enfim!

Durante a viagem, falei calmamente consigo, com o seu marido e com a avó da Bárbara. Tínhamos ido todos juntos. Falei-lhe novamente, agora com a sustentação médica, que mais importante do que a Babi ser capaz de fazer um currículo normal, era otimizar as áreas fortes, minimizando as áreas fracas e dotar a menina de mecanismos capazes de lhe conferir a sua autonomia, o seu bem-estar, regras de sociabilização e uma aprendizagem funcional.

Apesar da frieza da médica, esta viagem e o apoio dos outros pais deu os seus frutos.

Ao ver a menina feliz na escola, ao ver a menina a caminhar para a sua própria autonomia, a mãe sente-se hoje mais tranquila, equilibrando, assim, o bem-estar de toda a família.

Hoje, esta mãe é uma grande dinamizadora da escola de pais especiais.
Manuela CunhaProfessora Especializada em Educação Especial e autora dos livros Autismo - Um perturbação pervasiva do desenvolvimento e Semeadores de Afetos" - Vivências Reais de uma professora da Educação Especial.
Mentora, formadora e coordenadora dos projetos: "Escola de Pais Especiais"; "Aprender a ser Pais Felizes com um filho com deficiência"; " Aprender a ser Pais Emocionalmente Inteligentes" e "Sala de Aula Desenvolvimental - Crianças Especiais".
Mestre em Ciências da Educação, no ambito da Inteligência Emocional.
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